O PEREGRINO - A VIAGEM
DO CRISTÃO À CIDADE CELESTIAL
DO CRISTÃO À CIDADE CELESTIAL
CAPÍTULO 2
SEMANA 1 - QUARTA
Ler e orar: "Não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas." (2 Coríntios 4:18)
O Pântano da Desconfiança (2)
Obstinado voltou sozinho para a cidade, censurando os erros e as fantasias dos dois vizinhos, estes continuaram a caminhar pela planície fora e conversavam nestes termos:
Cristão - Amigo Flexível, ainda não tive ocasião de me informar da tua saúde. Não imaginas quanta satisfação me causa a tua companhia. Se o pobre Obstinado sentisse, como eu, o poder e os terrores do invisível, e a grandeza das coisas que nos esperam, por certo não se teria apartado de nós tão levianamente.
Flexível — Agora estamos sós, explica-me o que são essas coisas de que me falas, como havemos de as gozar e para onde é que nos dirigimos.
Cristão — Tenho mais facilidade em compreendê-las com o entendimento do que em expressá-las por palavras. Todavia se tens grande desejo de saber o que penso a respeito delas, ler-te-ei o meu livro.
Flexível — E tens certeza de que as palavras do livro são verdadeiras?
Cristão — Tenho sim; porque o seu autor é Aquele que não pode mentir (Tito 1:2).
Flexível — Muito bem. Então leia-me.
Cristão — Entraremos na posse dum reino que não terá fim, e seremos dotados de vida eterna¹, para podermos possuí-lo para sempre (Isaías 65:17; João 10:27-29).
Ser-nos-ão dadas coroas de glória, e vestidos tão resplandecentes como o sol no firmamento (II Timóteo 4:8); Apocalipse 22:5; Mateus 13:43). Não haverá ali pranto nem dor (Isaías 25:8; Apocalipse 7:16-17, e 21:4), porque o Senhor daquele reino limpará todas as nossas lágrimas.
Flexível — Quadro belo e magnífico! E a quem teremos por companheiros?
Cristão — Estaremos som os querubins e serafins (Isaías 6:2; I Tessalonicenses 4:16-17; Apocalipse 5:11), criaturas cujo brilho nos deslumbrará; também encontraremos milhares e milhares que para ali foram antes de nós, todos inocentes amáveis e santos, que vivem na presença de Deus para sempre.
Veremos os anciãos com as suas coroas de ouro (Apocalipse 4:4), as santas virgens entoando suaves cânticos ao som das suas harpas de ouro (Apocalipse 14:1-5) homens a quem o mundo esquartejou, outros que foram queimados em autos de fé ou devorados pelas feras, ou lançados nas profundezas dos mares, por amor do príncipe daquele reino; vivendo todos felizes, revestidos da imortalidade (João 12:25; II Coríntios 5:2, 3,5).
Flexível — A simples descrição arrebata-me de entusiasmo. E havemos de gozar esse bens? Que faremos para conseguir partilhar deles?
Cristão — O Senhor do reino declara neste livro (Isaías 55:1-2; João 4:37; e 7:37; Apocalipse 16:6; 22:17) quais são esses requisitos; eles se resumem nestas palavras: "Se verdadeiramente os desejamos, Ele no-los concederá de graça".
Flexível — Muito bem, amigo. O meu coração exulta de alegria; continuemos o nosso caminho e apressemos o passo.
Cristão — Infelizmente não posso andar tão depressa como desejo, porque este fardo que tenho às costas é pesadíssimo.
Conversaram ambos neste termos, quando os vi chegar à beira dum lodoso pântano, que havia no meio da planície, onde caíram por não o terem visto, entretidos como iam na conversa. Era o pântano da Desconfiança. Coitados! Atolaram-se no lodo, e Cristão atolava-se cada vez mais por causa do seu pesado fardo. - Onde é que estamos nós metidos? exclamou Flexível.
- Ignoro, respondeu Cristão.
- Então, replicou Flexível, esta é a felicidade de que tens estado a falar? Se assim começarmos a nossa viagem, não posso agourar-lhe bom fim. Mas eu te prometo que, se me vejo livre desta, dispensarei de bom grado a parte que poderia pertencer-me do tal decantado país.
E, fazendo um pequeno esforço, conseguiu alcançar a margem do pântano que ficava para o lado de sua casa. Logo que se viu fora do pego, deitou a correr na direção de sua casa, e Cristão não mais tornou a vê-lo. Entretanto, debatia-se Cristão no meio do lodo, diligenciando por chegar à margem oposta; mas o pesado fardo, que transportava, embaraçava-o sobremaneira e ele teria irremediavelmente perecido, se não tivesse chegado ali, muito a propósito, um sujeito chamado Auxílio, que lhe perguntou o que fazia naquele local.
Cristão — Senhor, um homem chamado Evangelista ensinou-me esta estrada para eu chegar à porta estreita, dizendo que lá me livrariam da ira vindoura. E, quando vinha caminhando, aqui caí inesperadamente.
Auxílio — Bem. Mas por que não seguiste pelas alpendras, aquelas pedras que ali estão colocadas para se atravessar o pântano com mais facilidade?
Cristão — Foi tal o receio que de mim se apoderou que, sem reparar em coisa alguma, segui pelo caminho mais curto e caí no lodaçal.
Auxílio — Vamos. Dá-me, pois, a tua mão.
Cristão viu os céus abertos. Apoderou-se da mão de Auxílio, saiu daquele terrível lugar, e, uma vez em terreno firme, continuou o seu caminho, conforme o seu libertador lhe havia indicado.
Acerquei-me então de Auxílio, e perguntei-lhe: - Ora, sendo este caminho direito entre a cidade da Destruição e essa porta, por que não mandam arranjar este lugar com mais decência para comodidade dos pobres caminhantes?
- É impossível, respondeu ele; este é o lodaçal para onde afluem as fezes e imundícies dos que se dirigem para a convicção do pecado, por isso se chama o Pântano da Desconfiança. Quando o pecador desperta no conhecimento das suas culpas e do seu estado de perdição, surgem em sua alma dúvidas, temores, apreensões desconsoladoras que se ajuntam e se condensam neste lugar. Eis a razão por que ele é tão esquecido e tão impossível de ser melhorado. Por certo que não foi a vontade de el-Rei que ele ficou em tão mau estado (Isaías 35:3-4).
Muitos operários tem, por ordem de sua majestade, e sob a direção dos seus superintendentes, durante muitos séculos, envidado todos os seus esforços para o melhorarem. É incalculável o número de caos e os milhões de saudáveis lições que para aqui tem sido enviados de todas as partes e domínios de sua majestade! Mas, apesar da opinião dos entendidos que asseveram ser estes os melhores materiais para a obra do almejado saneamento moral, ainda não foi possível realizá-lo, nem o será para o futuro.
O Pântano existe e continuará a existir! Fez-se quando se podia fazer. Por ordem do Legislador, foram colocadas no meio do pântano umas pedra fortes e sólidas, por onde se possa passar mais facilmente; mas, quando o lodaçal se agita, o que sempre acontece nas mudanças de tempo, exala miasmas que sufocam os viandantes, e estes, não vendo as pedras, caem no atoleiro. O que lhes vale é que, quando conseguem alcançar a porta, já encontram terreno bom e firme.
Depois vi que Flexível chegava à sua casa e que os seus vizinhos acudiam, em tropel, para o verem. Uns chamavam-no sábio, porque abandonara a tempo a empresa; censuravam outros por se haver deixado iludir por Cristão, e alguns chamavam-no de covarde porque, uma vez no caminho, não deveria ter retrocedido pelo fato apenas de se lhe haverem levantado umas pequenas dificuldades, Flexível sentiu-se abatido e envergonhado, mas pouco depois, achava-se senhor de si, e, então, todos em coro escarneciam de Cristão, na sua ausência. E assim sendo, creio que não tornarei a falar mais de Flexível.
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¹ Para ser mais preciso, em João 10:28 o Senhor se refere ao presente, não ao futuro: "Eu lhes dou a vida eterna" - a vida eterna é o próprio Senhor como vida sendo dado imediatamente ao homem quando este crê.
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Hino 161
"Em pé, minh’alma, em pé, não tenhas mais temor"
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