domingo, 22 de junho de 2025

O Peregrino, semana 2, segunda, capítulo 5

O PEREGRINO - A VIAGEM
DO CRISTÃO À CIDADE CELESTIAL

CAPÍTULO 5

SEMANA 2 - SEGUNDA

Ler e orar: "Desde os dias de João Batista até agora, o reino dos céus é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele." (Mateus 11:12)


Cristão em casa de Intérprete (2)

Em seguida levou Cristão a um sítio mui aprazível, onde se erguia um soberbo e suntuoso palácio, em cujas ameias¹ estavam pessoas vestidas de ouro; à porta viu uma grande multidão, desejosa de entrar, ao que parecia, mas que não ousava fazê-lo.

Viu também, pouco distante da porta, um homem sentado a uma mesa, com um livro e material para escrever, o qual estava encarregado de tomar nota dos nomes dos que entravam. Além disso, viu no átrio muitos homens armados, guardando a entrada, prontos a impedir, a todo o transe, o acesso aos que pretendessem entrar. 

Todas as coisas surpreenderam Cristão, mas o seu assombro foi indescritível ao ver que, enquanto todos retrocediam com medo dos homens armados, um, que levava pintada em seu semblante a intrepidez, acercando-se do que estava sentado à mesa, disse-lhe: Escreve lá o meu nome, e, ato contínuo, de espada na mão e a cabeça protegida por um elmo, acometeu os guardas, e apesar da fúria com que receberam, distribuiu com o maior denodo, botes e estocadas para todos os lados.

Era tal a sua intrepidez que, apesar de ferido, tendo derribado muitos dos que desesperadamente pretendiam embargar-lhe o passo (Mateus 11:12; Atos 14:22), abriu caminho por entre eles, e penetrou no palácio, com geral aplauso das pessoas que das ameias¹ tinham presenciado a luta, as quais o aclamavam, dizendo: Entrai, entrai, e gozareis a eterna glória; e, recebendo-o depois com inexprimível gozo, vestiram-lhe resplandecentes trajos, semelhantes aos que os adornavam.

- Compreendo perfeitamente, disse Cristão, sorrindo: permiti agora que eu continue o meu caminho.

- Não, respondeu Intérprete; ainda tenho algumas coisas a mostrar-te.

E pegando-lhe na mão, levou-o a uma casa escura onde estava um homem encerrado numa gaiola.

Profunda tristeza se notava em seu semblante; tinha o olhar fixo no chão, as mãos cruzadas sobre o peito, e prolongados suspiros e gemidos indicavam a aflição que lhe ia no íntimo. Que é isto? Exclamou Cristão, tomado de espanto. Ele que to diga, redarguiu Intérprete.

Cristão - Quem és?

Prisioneiro - Ah! Houve tempo que professei ser Cristão, prosperava e florescia a meus próprios olhos, e aos olhos dos meus semelhantes (Lucas 8:13). Julgava-me destinado à cidade celestial, e esta ideia enchia-me de júbilo. Agora, porém, sou uma criatura desesperada encerrado nesta gaiola de ferro, quero sair, e... Ai de mim! Não posso consegui-lo!

Cristão - Mas como chegaste a tão miserável situação?

Prisioneiro - Deixei de velar e de ser sóbrio, soltei as rédeas às paixões, pequei contra o que clara e terminantemente manda a palavra e a bondade do Senhor; entristeci o Espírito Santo, e este retirou-se de mim; invoquei o diabo, e ele acudiu ao meu chamamento; provoquei a ira de Deus, e Deus abandonou-me; o meu coração endureceu-se a tal ponto que já não posso arrepender-me.

Cristão - E não haverá remédio nem esperança para ti? Terás de permanecer encerrado perpetuamente nessa gaiola desesperadora? Não é infinitamente misericordioso o Filho Bendito do Senhor?

Prisioneiro - Já não tenho esperança. Em mim mesmo crucifiquei de novo² o Filho de Deus (Hebreus 6:6), aborreci a sua pessoa (Lucas 19:14), desprezei a sua justiça, profanei o seu sangue, ultrajei o Espírito da Graça (Hebreus 10:28-29), eis porque me considero privado de toda a esperança, e só me restam as terríveis ameaças dum julgamento certo e seguro, e a perspectiva dum fogo abrasador que me devorará. Eis o estado a que me reduziram as paixões, os prazeres e os interesses mundanos, que noutro tempo me proporcionaram gozos e deleites, mas que na atualidade me atormentam e me remordem como vermes de fogo.

Cristão - Mas não podes voltar de novo para Deus e arrepender-te?

Prisioneiro - Negou-me Deus o arrependimento³; já na sua palavra não encontro incentivo para crer; o próprio Deus me encerrou nesta prisão, e dela não poderiam arrancar-me todas as forças humanas. Oh! Eternidade! Eternidade! Que poderia eu lucrar com a miséria que me espera para todo o sempre!

Intérprete - Cristão, não olvides4 jamais a desgraça desse homem; sirva-te essa lembrança de aviso e de lição. 

Cristão - E lição bem terrível! Permita-me o Senhor que eu possa velar se ser sóbrio, e não chegue algum dia a sofrer tão grande miséria. Mas, repito, não parece que já é tempo de continuar o meu caminho?

Intérprete - Ainda não. Mais uma coisa tenho a mostrar-te. E, acompanhado por Cristão, entrou numa casa onde estava um homem levantando-se da cama, e que, à medida que se ia vestindo, estremecia e tremia. Intérprete não quis explicar o que significava este quadro, mas ordenou àquela personagem que ela própria explicasse.

O homem falou nestes termos: Sonhei esta noite que espantosas trevas obscureciam todo o céu, ao mesmo tempo que o fuzilar de terríveis relâmpagos, e o ribombar dos trovões, me prostravam na mais aflitiva agonia. Vi também as espessas nuvens chocarem-se umas contra as outras, impelidas por impetuoso tufão. Vi um homem sentado sobre uma nuvem, acompanhado de miríades de seres celestiais, todos em chamas. Parecia que os céus ardiam como em um braseiro, e ao mesmo tempo ouvi a voz duma terrível trombeta, dizendo: "Levantai-vos mortos, e vinde a juízo!" Nesse momento vi que até as rochas se fenderam e os sepulcros se abriram, saindo delas os mortos que encerravam, uns, contentes, com o olhar fito nos céus, outros, envergonhados, tentando esconder-se debaixo das montanhas.

Vi então que o homem que estava sobre a nuvem abria um grande livro e mandava que todos se acercassem dele, mas a distância respeitosa, como costuma guardar-se entre o juiz e os réus que ele vai julgar, pois da nuvem saía fogo que a ninguém permitia aproximar-se (I Coríntios 15:1; I Tessalonicenses 4:16; Judas 14-15; João 5:28-29; Apocalipse 20:11-13; Isaías 26:21; Miquéias 7:16-17; Salmo 44:1-3; Malaquias 3:2-3; Daniel 7:9-10). E logo ouvi o homem da nuvem ordenar aos servidores: "Apartai a cizânia e palha, e lançai tudo no fogo ardente" (Mateus 3:12; 7:19; 12:30; 25:30; Malaquias 4:1). E no mesmo instante exatamente ao pé do lugar em que eu me achava, se abriu o abismo, de cuja boca saíam, com horrível ruído, espantosas colunas de fogo e brasas incandescentes.

E o homem tornou a falar, dizendo: "Recolhei o meu trigo no celeiro" (Lucas 3:17), e vi então que muitos foram arrebatados pelas nuvens, mas eu fiquei onde estava (I Tessalonicenses 4:16-17). Buscava um sítio para me esconder, mas não o encontrava, porque o olhar do juiz estava fito em mim; senti então que os meus pecados se amontoavam na minha memória, e que a minha consciência me acusava por todos os lados (Romanos 2:15). E despertei.

Cristão - E por que te assustaste tanto ao ver essas coisas? - Porque julguei que era chegado o dia do juízo final, e eu não estava preparado para ele; e ainda mais porque vi os anjos arrebatarem muitos, deixando-me mesmo à beira do abismo, ao passo que era atormentado pela minha consciência, que o juiz me fitava, e que o seu rosto parecia cheio de indignação.

Quando o homem acabou de falar, Intérprete, dirigindo-se a Cristão que estava flutuando entre a esperança e o temor, disse-lhe: Grava estas coisas na tua memória, e oxalá5 que elas te sirvam de estímulo para não retrocederes no caminho que vais trilhar. Parte, pois, e que te acompanhe o consolador, sendo sempre o teu guia até a cidade. Cristão pôs-se a caminho, e repetia amiudadas6 vezes consigo mesmo: Grandes e proveitosas coisas acabo de ver; apesar de terríveis, são para mim de muito valor. Quero pensar nelas, porque não foi debalde que me foram ensinadas. Muito agradecido estou ao bom Intérprete, pela bondade que me dispensou.


________________

¹ Ameias - cada um dos parapeitos separados regularmente por merlões na parte superior das muralhas de fortalezas e castelos; recorte no cimo de muralha ou torre.

² Apesar da ilustração do homem preso na gaiola ter como base o texto de Hb 6:1-8, essa passagem bíblica não nos dá nenhuma base para se crer que os cristãos possam perder sua salvação em Cristo. Esse texto trata de uma advertência aos crentes hebreus, que estavam se deixando persuadir a voltar à sua antiga religião judaica, o que impediria o avanço na obra de salvação do Senhor neles. A obra de salvação de uma pessoa que já creu no Senhor Jesus pode ser atrasada, mas nunca anulada, pois é irreversível (Jo 10:28-29). Referente a esse assunto, o irmão Witness Lee faz o seguinte comentário de Hb 8:3: "Uma vez salvos, os crentes jamais podem ser uma verdadeira maldição. Contudo, se não prosseguirem para produzir Cristo, mas se apegarem às coisas que desagradam a Deus, estão próximos da maldição que é sofrer a punição do tratamento governamental de Deus. (Isso deve ser considerado como a disciplina ou o castigo referido em 12:7-8). Estar próximo da maldição é completamente diferente de sofrer a perdição eterna, que é a verdadeira maldição."

³ Reconhecemos que Deus pode sim endurecer o coração dos homens (Êx 4:21; 7:3; Js 11:20; 1 Sm 2:25; Rm 11:7-8, a ponto de não conseguirem mais se arrepender. Mas se isso acontecer com um cristão, significa que ele estará reprovado para reinar com Cristo na era vindoura (milênio) com os demais vencedores. Embora os crentes não se percam eternamente, podem sofrer no milênio uma punição dispensacional pelas sua falhas (Hebreus 10:28-29), o que no NT é chamado pelo Senhor como "pranto e ranger de dentes" (Mt 8:12).

4 "Não olvides" - "Não esqueças"

"Oxalá" - "Tomara"

6 "Amiudadas vezes" - "repetidas vezes"



Desfrute mais:

Hino "Mistério"

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Estudo-Vida de Ezequiel, semana 9, sábado, mensagem 20

ESTUDO-VIDA DE EZEQUIEL Mensagem 20 OS ÁTRIOS EXTERIOR E INTERIOR SEMANA 9 - SÁBADO Leitura Bíblica:  Ez 40-42 Ler e orar:  “ Respondeu-lhes...