O PEREGRINO¹ - A VIAGEM
DO CRISTÃO À CIDADE CELESTIAL
PREFÁCIO
SEMANA 1 - DOMINGO
Leitura Bíblica: Hb 13
Ler e orar: "Lembrai-vos dos encarcerados, como se presos com eles; dos que sofrem maus-tratos, como se, com efeito, vós mesmos em pessoa fôsseis os maltratados." (Hb 13:3)
João Bunyan, o autor de O Peregrino, nasceu em Elstow, Bedford, Inglaterra, no ano de 1628. Era filho de pais humildes e foi criado na ignorância, como geralmente acontece às pessoas de sua classe. Na mocidade aprendeu o ofício de funileiro, do qual viveu por alguns anos. Anteriormente ao seu primeiro casamento, Bunyan levava uma vida livre e escandalosa, que mais tarde foi moderada pela benéfica influência de sua mulher, contudo, só alguns anos depois é que a conversão real da sua alma pôs termo a essa vida desregrada.
As profundas experiências pelas quais passou depois de convertido, ligadas aos dons naturais de que era possuidor, habilitaram-no, de um modo especial, a apresentar os fatos aos outros homens. Assim foi que não demorou a começar o seu ministério, do qual, mais tarde, se ocupou exclusivamente, com uma eficácia não alcançada por qualquer outro ministro do seu tempo.
A sua pregação do Evangelho e a sua ausência nos cultos da Igreja Oficial atraíram sobre ele a atenção das autoridades eclesiásticas da vizinhança, por cuja instituição foi ele lançado em prisão. Aí permaneceu durante doze anos, e, para sustentar a mulher e a filha cega, fabricava cordões para sapatos. E foi aí, na prisão de Bedford, que ele concebeu e deu forma à grande alegoria que imortalizou seu nome.
Cumprida a pena, Bunyan foi posto em liberdade, e então começou a pregar em Bedford, em Londres e em outras cidades. Escreveu diversas obras de grande utilidade e continuou seu ministério até a idade de sessenta anos. Sua última viagem foi feita para apaziguar um pai e um filho que se achavam brigados. Nessa viagem apanhou um grave resfriado que lhe roubou a vida.
Nos fatos assim resumidamente narrados e especialmente no fato de sua prisão, veem alguns escritores a disciplina e o preparo de Bunyan para escrever "O Peregrino". Mas a grande obra de Bunyan não se explica assim. Estudando-se as circunstâncias de sua vida anterior, ninguém diria que ele viesse a produzir semelhante obra. Bunyan é a grande criação da providência divina, que só se explica como se explica a criação de um mundo. E um fenômeno que só se compreende pelo fato que Deus por processos que nós não podemos explicar e por meios que nos parecem inadequados, faz surgir grandes homens para grandes fins. E não só escolhe as coisas loucas deste mundo para confundir a sábios, e fracos para confundir a fortes, como revela a sabedoria e a força onde menos são estas qualidades suspeitadas.
Bem indica o espírito da Inglaterra cristã o fato de que ela, que deveria ter colocado Bunyan entre os seus mais dignos filhos, houvesse, ao invés, retribuído o seu esforço com perseguições e encarceramento, quando seu único crime foi ausentar-se dos serviços públicos da Igreja oficial, promover reuniões onde pregava o Evangelho, e fazer o culto de um modo que lhe parecia mais de acordo com os princípios do Novo Testamento. E isto no entender das autoridades eclesiásticas, era um grande crime.
Assim, foi Bunyan preso em uma reunião, em Sansell, e não podendo prestar fiança, foi recolhido ao cárcere para esperar o processo que só se realizou sete semanas depois. Assim dizia sua acusação: "João Bunyan, de Bedford, operário, diabólica e perniciosamente se tem ausentado da Igreja, promovendo reuniões e ajuntamentos ilegais, que grandemente desnorteiam e perturbam os bons súditos deste reino." Sob esta acusação, sem ser ouvida uma só testemunha, foi ele condenado. O Juiz Keeling num tom brutal que muito distoava da sua dignidade de juiz, lhe disse: "ouve a tua sentença: tens que voltar para a prisão, onde ficarás por três meses. E no fim de três meses, se não tornares a frequentar a Igreja e se não desistires das tuas pregações, serás banido do reino, onde voltando sem licença especial do rei, serás enforcado. Atenta, pois no que te digo". E voltando-se para o carcereiro, disse: "Levai este homem".
A resposta de Bunyan foi tão digna do seu caráter cristão quanto a sentença foi indigna do Juiz que a proferiu. "Se eu saísse hoje da prisão", disse ele, "pregaria amanhã, com o auxílio de Deus"! E acompanhando o carcereiro, foi de novo encerrado.
Mas nem todos os horrores da prisão, nem a separação da esposa e dos quatro filhos, abalaram o espírito deste grande servo de Deus. Especialmente sofria ele com a separação da filha cega. "Minha pobre filha", dizia ele, "quão triste é a tua porção neste mundo! Serás maltratada, pedirás esmolas, passarás fome, frio, nudez e outras calamidades! Oh!, os sofrimentos da minha ceguinha quebrar-me-iam o coração aos pedaços!" Contudo Bunyan não fraquejou, porque tudo entregou nas mãos de Deus. "Na verdade", dizia ele, "quando deixei a minha casa, levava a paz de Deus no coração. Bendito seja o Senhor, fui para o cárcere com a paz de Deus na minha pobre alma".
Os juízes não sabiam o que fazer com ele. Constantemente mandavam buscá-lo à sua presença e como Bunyan não prometesse mudar de conduta, mandavam-no novamente para a prisão, temendo bani-lo da Inglaterra, conforme a sentença do Juiz Keeling. Os amigos intercediam por ele. Sua esposa, que concordava com suas ideias, foi a Londres com uma petição e apresentou-a à Câmara dos Lordes. Apesar de ser uma moça retraída, apresentou-se perante os juízes e defendeu tão bem seu marido, que qualquer advogado não o faria melhor. Mas foi tudo em vão. A única condição exigida para a sua liberdade foi uma condição que o prisioneiro não podia aceitar por nada deste mundo. "Teu marido deixará de pregar?" perguntou o Juiz Twisten à esposa de Bunyan. "Meu senhor", respondeu ela, "ele não poderá deixar de pregar enquanto tiver voz para falar".
Bunyan era um homem de consciência extremada. Plenamente convencido de que era chamado por Deus para pregar o Evangelho arrostava² os homens que queriam desviá-lo da trilha começada. E para viver em paz com a consciência, estava pronto a sofrer tudo o que lhe foi imposto.
Mais de doze anos passou ele no cárcere. Doze anos! E fácil escrever estas palavras, porém difícil conceber a sua significação. Doze anos representam a quinta parte da sua vida na idade de maior energia. Apesar de seu corpo estar circunscrito ao estreito âmbito de uma prisão, a sua alma estava liberta. Porque foi ali, numa cela úmida em Bedford, que Bunyan teve aquelas gloriosas visões, e foi ali que ele as enfeixou magistralmente na sua obra imortal, era-lhe bastante fechar os olhos, e deixava de ser o prisioneiro para se tornar naquele peregrino cuja trajetória descreve com tanto vigor.
O cárcere de Bedford desaparecia e sua alma libertada ascendia ao monte da visão, donde descortina a carreira do peregrino. Dali via ele a Cidade da Destruição e rememorava como saíra dela, com um grande fardo aos ombros. Via o Pântano da Desconfiança e o grande morro vizinho à casa do Sr. Legalidade, com seus precipícios e suas labaredas vivas. Relembrava a sua entrada pela Porta Estreita, sua visita à casa do Intérprete, seu êxtase ao chegar ao pé da Cruz, quando, com os olhos fitos no Crucificado, o fardo caiu-lhe dos ombros. E mais adiante, via o Palácio Belo, onde encontrara alimento e repouso, e onde despertara cantando no quarto da Paz. Então passeava nas montanhas da Delícias, na companhia dos pastores, onde, do Morro da Luz, com o telescópio da fé, divisava ao longe os pórticos de pérola, as torres de ouro e as muralhas de jaspe da Cidade dos Bem-Aventurados, ou demorava na terra de Beulá. Ou então, passando o rio, subia o morro que ia ter às portas da Cidade, e os imortais tomavam-lhe das mãos e o fardo dos seus ombros cansados caía ao rio. As portas se abriam à sua chegada; as trombetas soavam à sua aproximação. Os sinos da Cidade "repicavam de alegria". Os anjos vinham-lhe ao encontro com harpa e coroa de davam-lhe a harpa para cantar louvores e a coroa "em sinal de honra". E a multidão de remidos o rodeavam com aclamações, dizendo: "Entra no gozo do teu Senhor".
E todas estas visões eram reais para ele, - mais reais do que as suas nuas paredes do seu cárcere; porque estas eram sombras que passavam, ao passo que aquelas eram a realidade que permanece para sempre. E despertando do sonho, com o semblante irradiando alegria celestial, traçava aqueles quadros admiráveis que depois de perecidos os seus perseguidores, reduzidas a pó as paredes do seu cárcere e passados os dias de sofrimento, vieram trazer luz e alegria a todas as terras, a todas as gerações, na solidão e nas cidades, no palácio e na choupana, a jovens e a anciãos, a ricos e a pobres, a sábios e a ignorantes.
Sem contestação, a prisão de Bunyan redundou para o progresso do Evangelho. A Providência que sabe conter a ira do homem e afaz contribuir para sua glória, fez com que a malícia dos seus perseguidores servisse à causa que procuravam destruir. Vemos, então, a mão divina usando a prisão de Bunyan para movê-lo a escrever, e vemo-lo tirar partido das circunstâncias para facilitar-lhe o trabalho.
As crueldades que se praticavam em outras prisões talvez tivessem posto termo aos dias do prisioneiro ou talvez o tivessem impossibilitado de escrever; mas o carcereiro de Bedford tratava a Bunyan com tanta humanidade que até chegava a desgostar os juízes. Assim é que, de vez em quando, Bunyan tinha a liberdade para visitar a família. Certa vez, um pároco, tendo notícia dessas visitas, denunciou o carcereiro. Isto deu-se justamente num dia em que Bunyan estava de visita em casa. Ora, aconteceu que Bunyan começou a sentir-se mal, e, por este motivo, voltou para a prisão mais cedo do que pretendia. Mal entrara Bunyan na sua cela, quando chegou o fiscal da prisão e interrogou o carcereiro: "Todos os presos estão aqui?" Respondeu ele: "Sim". "João Bunyan está aqui?" insistiu ele. "Sim", tornou o carcereiro. E como o fiscal quisesse averiguar com seus próprios olhos, logo lhe foi apresentado o prisioneiro. Depois deste incidente o carcereiro dizia a João Bunyan "Podeis sair quando quiserdes porque sabeis melhor do que eu, a hora de voltar".
E assim foram conservadas a vida e a saúde daquele homem que proibido de pregar a pequenos grupos em lares de pobres, prega hoje, através dos seus livros, a milhões de criaturas de todas as terras e de todas as gerações, enquanto que aqueles que procuravam tapar-lhe a boca para que não falasse, jazem hoje no pó do esquecimento. E assim são os inimigos do Evangelho: desmancham os seus próprios planos e assim vence o bem, aureolado de glória e resplendor.
A popularidade do livro de João Bunyan, intitulado "O Peregrino", é sem paralelo. Durante a vida do autor, muitos volumes foram vendidos na Inglaterra - naquele tempo em que os livros eram escassos no reino - e diversas edições foram publicadas na América do Norte. Foi traduzido para o francês, flamengo, alemão, gaulês, irlandês, e para muitas outras línguas, e somente a Bíblia lhe ultrapassa a popularidade.
"O Peregrino" é conhecido como clássico, onde quer que se fale a língua inglesa. E vendido por todos os preços e lido por todas as classes, ricamente ilustrado, elegantemente encadernado, ornamenta a biblioteca do rico. Ou simples e rasgado pelo uso se encontra na prateleira do pobre. As crianças acham profundo encanto nas suas histórias de perigos e conflitos, de desespero e de vitória. Homens, tão ignorantes que mal sabem ler, ficam fascinados com a sua leitura. E homens instruídos, embora não simpatizem com o seu objetivo religioso, sentem o poder do seu génio e são levados a admirar as suas belezas, as suas terríveis criações e sua alta compreensão da natureza humana. Os crentes novos, no início da carreira, o leem para conforto e incentivo nas lutas; os veteranos da fé, que ainda permanecem para cá do rio, veem nele, fielmente retratadas, as dores e as tribulações que já passaram.
"O Peregrino" é um livro universal - apela para todos os povos, todas as classes e todas as religiões de todos os tempos. E o que excita a nossa admiração é saber que foi escrito por um homem sem instrução e descendente de uma tribo vagabunda, que o escreveu espontaneamente, inconscientemente, sem esforço, como se o fizesse mais para expandir o tumulto de imagens que lhe ia no cérebro. Mas, faltar-nos-ia o tempo, e o espaço não permite discorrer sobre todas as belezas deste livro. Quanto mais o estudamos tanto mais vemos nele o segredo da sua popularidade que, excetuando a Bíblia, é sem rival entre os livros.
Com prazer, pois, o recomendamos a todos os amigos da boa literatura, e é nosso sincero desejo que alguns dos leitores sejam levados a começar esta mesma jornada do peregrino e que aqueles que já a começaram, prossigam nela com coragem e galhardia³ , até completarem a peregrinação que Bunyan tão admiravelmente traçou.
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¹ Obra de Jonh Bunyan (1678), "O peregrino", também conhecida como "O Peregrino: O progresso do peregrino desde este mundo até o mundo que há de vir" trata-se de um clássico da literatura universal cristã. Esse material foi transcrito da 12 a edição de 1969 da Imprensa Metodista.
² Enfrentar com coragem, ousadia ou desafio; suportar, resistir, desafiar.
³ Bravura, nobreza de atitude ou elegância com dignidade.
Desfrute mais:
Hino "Oh! Jesus, Senhor meu! Nome com dulçor"
https://hinario.org/detail.php?tab=1&mainmp3=admin/Uploaded-mp3-Files/0287.voz_piano.mp3&id=352
1 Oh! Jesus, Senhor meu!
Nome com dulçor;
Como posso eu ver
Todo seu valor?
2 Que pecado triste,
Que vergonha, eu
Não ver a beleza
Deste nome Teu.
3 Nunca tinha visto
Tal amor fiel,
Nem a dor da morte
Que por mim sofreu.
4 É misterioso,
Mas tem tal valor,
Este Nome – Jesus,
Salvador, Senhor.
5 Minha culpa foi-se,
Livre estou eu;
O Senhor fez isto,
Glória ao Nome Seu!
6 Compaixão tão doce
Que chegou a mim;
Na prisão eu tinha
Aflição sem fim.
7 Oh! Jesus, que Nome!
É o tesouro meu!
Oh! que gozo tenho
No bom nome Seu!
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