O PEREGRINO
A VIAGEM DO CRISTÃO
À CIDADE CELESTIAL
À CIDADE CELESTIAL
CAPÍTULO 11
SEMANA 4 - DOMINGO
Ler e orar: "Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo" (Fp 3:8)
Cristão encontra em Fiel um companheiro excelente (3)
Cristão - Muito bem; e que lhe respondeste?
Fiel - Disse-lhe que, apesar de serem meus parentes, segundo a carne, todos os que acabava de nomear, não era menos certo que, desde o momento em que entrara neste caminho, eles haviam renunciado a esse parentesco e eu pagava-lhes na mesma moeda, de modo que, presentemente, nenhuma relação há entre nós.
Mais: disse-lhe que, pelo que diz respeito ao vale, laborava em completo erro, porque a humanidade precede a glória, o espírito eleva-se antes da queda, razão por que preferia eu antes passar deste vale à honra que os mais sábios ambicionavam, do que optar pelo que ele julgava mais digno dos nossos afetos.
Cristão - E não encontraste mais ninguém?
Fiel - Encontrei um tal Pejo. De todos quantos tenho encontrado na minha peregrinação, é este o que me parece que tem nome menos apropriado. Os outros cediam ao cabo de alguma argumentação, mas este insolente não se calava.
Cristão - Então, que te disse ele?
Fiel - Ora! O que me disse? Até a própria religião punha objeções. Dizia que era uma coisa servil e miserável ocupar-se um homem com semelhantes ideias; que o escrúpulo [preocupação moral] da consciência era uma covardia; que seria coisa irrisória aviltar-se [humilhar-se] o homem até o ponto de medir as suas palavras, abdicando [desistindo] da altiva liberdade que é o apanágio [qualidade] dos espírito fortes do tempo em que vivemos.
Objetou [discordou], igualmente, que somente um limitado número dos poderosos, dos ricos e dos sábios seguira a minha opinião, em todos os tempos, e que nenhum deles o fizera senão quando se tornou estulto [tolo] e quando se deixou convencer da necessidade de arriscar voluntariamente a perda de tudo por uma coisa que ninguém sabe o que é (I Cor. 1:26; 3:18; Fil. 3:7-9; João 7:48).
Considerai o estado e a condição baixa e servil a maioria dos peregrinos da nossa época, acrescentou ele, como também a sua ignorância, a sua falta de civilização e de conhecimento das ciências naturais. Sobre este assunto discursou largamente, bem como sobre muitos outros pontos semelhantes, tais como - que era vergonhoso estar gemendo e chorando a ouvir um sermão, voltar para casa com semblante triste, pedir perdão ao próximo das mais leves ofensas, e restituir o que fora roubado.
Disse-me também que a religião faz com que o homem renuncie aos grandes e aos poderosos, por estes terem alguns pequenos vícios (a que deu nome muito mais suave), e reconheça e respeite os miseráveis como irmãos. Não será isto uma vergonha? Exclamou, por fim.
Cristão - E tu, que respondeste?
Fiel - Confesso que a princípio não sabia o que havia de dizer-lhe, pois tais coisas me disse que me subiu o rubor [vergonha] ao rosto. O próprio Pejo quase me venceu. Mas, depois, comecei a pensar que o que os homens têm por sublime é abominação diante de Deus (Luc. 16: 15); que este Pejo me diz o que são os homens, mas não o que é Deus, nem a sua palavra, nem os seus pensamentos, que no dia do juízo não seremos sentenciados em conformidade com os espíritos orgulhosos do mundo, mas em conformidade com a sabedoria e a lei do Altíssimo.
Portanto, pensei, o melhor é, seguramente, o que Deus diz, ainda que esteja em oposição com todos os homens que há no mundo. Vejo que Deus prefere a sua religião a uma consciência delicada; que os mais bem aceitos são os que pelo reino dos céus se fazem néscios; e que um pobre que ama a Cristo é mais rico do que o mais rico do mundo, se este o odeia.
Aparta-te, pois de mim, Pejo! Inimigo da minha salvação! Pois hei de prestar-te ouvidos em detrimento [prejuízo] do meu Senhor, do meu Soberano? Se eu tal fizesse, como poderia encará-lo no dia da sua vinda? (Marc. 8:38). Se eu me envergonhasse agora dos seus caminhos e dos seus servos, como poderia esperar a sua benção ?
Realmente este Pejo era um sujeito muito atrevido. Dificilmente pude conseguir que me deixasse, mas ainda depois que apoquentou [perturbou] com repetidos encontros, segredando-me ao ouvido ora uma, ora outra das fraquezas em que caem os que seguem a religião; mas, por fim, fiz-lhe compreender que perdia miseravelmente o seu tempo, porque nas coisas de que ele desdenhava era onde eu via precisamente maior glória.
Só assim pude ver-me livre das suas importunações, e, desafogando então em alta voz, exclamei: São muitas as tentações que encontram aqueles que obedecem à voz do céu, e todas conforme as inclinações da carne: quando umas são vencidas, logo outras nos assaltam. Alerta, peregrinos, portai-vos sempre varonilmente!
Cristão - Muito estimo, irmão, que afrontasse com tanta valentia esse infeliz, a quem, como judiciosamente [prudentemente] disseste, tão mal quadra o nome de que usa. E um atrevido que até nas ruas nos persegue, procurando envergonhar-nos do bem. Mas, se o seu atrevimento não fosse tamanho, como havia de fazer o que faz? Resistimos-lhe, porque, apesar das suas pretensões, só alcança os seus fins com os néscios, e com ninguém mais. Salomão disse: "Os sábios possuirão a glória: a exaltação dos insensatos será a sua ignomínia" (Prov. 3:35).
Fiel - Pareceu-me que nos é mui necessário pedir Aquele que quer que sejamos valentes pela verdade na terra, que nos proteja contra Pejo.
Cristão - Dizes bem. E não encontraste mais ninguém no vale?
Fiel - Não, porque me aluminou o sol durante o resto do caminho, assim como no vale da Sombra da Morte.
Cristão - Boa sorte tiveste; outro tanto não me aconteceu. Logo à entrada do vale, tive de sustentar um terrível e prolongado combate com o maligno Apolião. Julguei que ele desse cabo de mim, principalmente quando me calcou aos pés, como se quisesse esmagar-me. Quando me lançou por terra, caiu-me a espada da mão, e ouvi-o exclamar: Agora não me escapas! Mas eu clamei pelo Senhor, e Ele, ouvindo-me, pôs termo a todas as minhas angustias.
Passei depois ao Vale da Sombra da Morte, e quase metade do caminho tive de ir às escuras, por ser já noite. Afigurouse-me muitas vezes que ia morrer, mas finalmente raiou o dia, ergueu-se o sol, e assim pude continuar o caminho com muito mais sossego e facilidade.
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Hino Anelos - "Pela Expressão de Cristo"
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