O PEREGRINO
A VIAGEM DO CRISTÃO
À CIDADE CELESTIAL
À CIDADE CELESTIAL
CAPÍTULO 12
SEMANA 4 - SEGUNDA
Ler e orar: "No muito falar não falta transgressão,
mas o que modera os lábios é prudente." (Pv 10:19)
Cristão encontra Loquaz
Em Loquaz apresenta-se o verdadeiro retrato de muitos falsos mestres da Religião, que fazem consistir esta em muitas palavras e em nenhuma obra.
Iam os dois peregrinos nesta importante conversação, quando vi no meu sonho que Fiel, olhando para um lado da estrada, avistara um homem, chamado Loquaz, que ia um pouco distante deles, pois o caminho era tão largo que havia lugar para todos. Era um homem alto, mais bem parecido de longe do que de perto. Fiel chamou-o, perguntando-lhe se se dirigia para o País Celestial.
Loquaz - Exatamente. Para lá me encaminho.
Fiel - Também nós. E se quer ir conosco, gozaremos a sua amável companhia.
Loquaz - Acompanhá-los-ei da melhor vontade.
Fiel - Caminhemos, pois, juntos, e empreguemos o tempo em conversas proveitosas.
Loquaz - Muito agradável é para mim tudo quanto são conversas proveitosas, e sinceramente, me felicito por haver encontrado pessoas que se dediquem a tão boa obra, porque, na verdade, poucos são os que assim empregam o seu tempo quando viajam; a maior parte prefere conversar em coisas frívolas, coisas que sempre me afligem muito.
Fiel - É realmente muito para lamentar, porque nada há tão digno da nossa conversação como as coisas que pertencem a Deus e aos céus.
Loquaz - Quanto gosto de vos ouvir falar desse modo! Porque a vossa linguagem revela uma convicção profunda. Pois há coisa comparável ao prazer e ao proveito que se tira de falar das coisas de Deus? Se gostamos do maravilhoso, por exemplo, da história, de mistérios, de milagres, de prodígios e sinais, onde encontraremos leitura tão deleitável, e tão docemente escrita, como nas Escrituras Sagradas?
Fiel - É verdade, mas devemos tirar sempre proveito da nossa conversação.
Loquaz - Sou do mesmo parecer. Falar dessas coisas é muito proveitoso, porque elas se pode chegar ao conhecimento de muitas outras, tais como a vaidade das coisas mundanas, e o proveito das celestiais. Isto em geral; e, descendo às particularidades, pode-se aprender a necessidade dum novo nascimento, a insuficiência das nossas obras, a necessidade que temos da Justiça de Cristo, etc.
Também nessa conversação se pode aprender o que é arrependimento, crença, oração, sofrimento, e coisas semelhantes. Podemos também aprender quais são as grandes promessas e consolações do Evangelho, para nosso proveito; e pode-se, finalmente, chegar a saber como se hão de refutar as falsas opiniões, defender a verdade e ensinar os ignorantes.
Fiel - Tudo isto é muito verdade, e eu folgo imenso de vos ouvir falar assim.
Loquaz - A falta destas práticas é a causa de haver tão pouco quem compreenda a necessidade da fé e da obra da graça, em sua alma, para alcançar a vida eterna; e de que vivam, por ignorância, nas obras da lei, mediante as quais de nenhum modo pode o homem chegar ao reino dos céus.
Fiel - Haveis de permitir que vos diga que o conhecimento espiritual dessas coisas me parece ser dom de Deus. Ninguém as consegue só por falar delas ou por empregar esforços humanos.
Loquaz - Sei isso perfeitamente, pois nada podemos obter se de lá de cima não for dado. Tudo é pela graça, nada pelas obras, centenas de textos o confirmam.
Fiel - Muito bem. Limitemos agora a nossa conversação a um assunto em particular.
Loquaz - E qual assunto escolheis? Quereis que vos fale de coisas terrenas ou celestiais? De coisas morais ou evangélicas? De coisas sagradas ou profanas? Passadas ou futuras? Estranhas ou do país? De coisas essenciais ou mais acidentais? Escolhei, e eu falarei sobre o que quiserdes, sempre com a condição de se tirar proveito.
Fiel - (Admirando e chegando-se muito a Cristão, que durante este tempo se tinha conservado um pouco distante): Que belo companheiro encontramos; deve ser um excelente peregrino!
Cristão - (Sorrindo-se com modéstia) - Esse homem, com quem tanto simpatizas, é capaz de enganar a vinte que o não conheçam.
Fiel - E tu o conheces?
Cristão - Se o conheço? Melhor do que ele próprio se conhece.
Fiel - Então, quem é?
Cristão - Chama-se Loquaz, e vive na cidade onde nascemos; admira-me que o não conheças.
Fiel - De quem é filho? Onde mora?
Cristão - É filho dum tal Bem Falante, que morava na rua das Boas-Palavras; mas, apesar da sua língua de prata, é pessoa de pouco mais ou menos.
Fiel - Pois parece um homem muito decente.
Cristão - Sim, para quem não o conhece; parece melhor quando viaja; quando está em sua casa, é coisa muito diferente. Quando disseste que parecia ser pessoa decente, lembrei-me dos quadros de alguns pintores, que fazem melhor efeito a certa distância do que de perto.
Fiel - Não sei se devo tomar por gracejos as tuas palavras, porque vejo sorrir-te.
Cristão - Livre-me Deus de gracejar neste assunto, apesar de haver sorrido; nem permita o Senhor que eu acuse pessoa alguma falsamente. Agora vou dizer-te o que sei a respeito desse homem. Todas as companhias lhe servem; todas as conversações lhe agradam; o que te disse há pouco é o mesmo que dirá numa taberna. Quanto mais bebe, mais fala nestas coisas. A religião verdadeira não existe no seu coração, nem na sua casa, nem na sua vida; tudo que tem está na ponta de sua língua e a sua religião consiste em apregoar que a tem.
Fiel - Falas a sério? Estou então muito enganado com esse sujeito!
Cristão - Falo a sério. Podes confiar no que te digo: estás muito enganado com ele. Lembra-te do provérbio: "Dizem e não fazem", porque o reino de Deus não consiste em palavras, mas em virtude (Mateus 23:3; I Coríntios 4:20). Fala da oração, do arrependimento, da fé, do novo nascimento, mas nada disso sente; não faz mais do que falar. Tenho-o estudado e observado muito bem, tanto em sua casa como fora dela, e sei que o que digo é a pura verdade. A sua casa é tão falta de religião como falta de sabor é a clara do ovo.
Não há ali oração nem sinal algum de arrependimento do pecado; os irracionais, lá a seu modo, servem a Deus muito melhor do que ele. Depois é a própria nódoa [reputação], opróbrio e vergonha da religião, para todos os que o conhecem (Romanos 2:23-24). No bairro em que habita apenas se poderá ouvir uma palavra em favor da religião, e isto por culpa dele: o povo tem por hábito dizer que ele é um santo fora e um demônio em casa. A própria família o conhece bem, pois o vê tão grosseiro e tão colérico para com todos que nem sabe o que há de fazer para lhe agradar, nem como há de falar-lhe.
Os que têm algum negócio com ele dizem, sem rebuço, que antes queriam tratar com um maometano, pois estão certos de encontrar mais honradez num seguidor de Mafoma¹. Só quando não pode é que deixa de enganar, de defraudar e a abusar daqueles com quem trata: o pior de tudo se descobrir em algum deles um temor ignorante (assim chama ele ao primeiro sinal de sensibilidade da consciência), chama-lhe torpe, néscio e estúpido, até mais não poder, recusa-se a empregá-lo em trabalho algum, e nem mesmo quer recomendá-lo a ninguém.
Quanto a mim, creio firmemente que a sua vida escandalosa tem sido causa de muitos tropeçarem e caírem, e, se Deus não o impedir, será a ruína de muitos outros.
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¹ Mafoma é uma forma arcaica e portuguesa de se referir a Maomé, o profeta fundador do Islã. Esse termo foi usado na Idade Média e em textos antigos, muitas vezes com conotação pejorativa ou distorcida, especialmente em contextos cristãos. Hoje, o uso de "Mafoma" é considerado obsoleto e desrespeitoso — o nome correto e respeitoso é Maomé em português, ou Muhammad em árabe.
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