O PEREGRINO
A VIAGEM DO CRISTÃO
À CIDADE CELESTIAL
À CIDADE CELESTIAL
CAPÍTULO 17
SEMANA 5 - SÁBADO
Ler e orar: "Atentando, diligentemente, por que ninguém seja faltoso, separando-se da graça de Deus; nem haja alguma raiz de amargura que, brotando, vos perturbe, e, por meio dela, muitos sejam contaminados; nem haja algum impuro ou profano, como foi Esaú, o qual, por um repasto, vendeu o seu direito de primogenitura." (Hb 12:15,16)
Roubo de Pouca-Fé
Esperança - Grande consolação devia sentir [Pouca-Fé], ao ver que não lhe haviam arrebatado essa preciosidade.
Cristão - Poderia ter-lhe sido de grande consolação, se tivesse aproveitado dela como devia. Mas, pelo que me contaram, fez muito pouco uso dela, nas várias circunstâncias em que se encontrou, por causa do grande susto que recebeu quando lhe roubaram o dinheiro.
Esqueceu-se do precioso pergaminho durante a maior parte da sua viagem, e, se alguma vez se lembrava dele e esta recordação começava a consolá-lo, logo a ideia da perda que sofrera lhe acudia à memória, enlutando a sua alma e tirando-lhe toda a paz.
Esperança - Coitado, deve ter sofrido muito.
Cristão - Se deve! E não teria sofrido qualquer de nós se tivesse sido tratado como ele foi, roubado e ferido num lugar ermo [deserto]? O que me admira é ele ter podido sobreviver a tanto sofrimento. Contaram-me que, por todo caminho, ia soltando amargas e dolorosas queixas, contando a todos os que encontrava onde e como haviam tirado, como tinha sido ferido, e como escapara com vida a tão grandes provações.
Esperança - Admira-me que não lhe ocorresse a ideia de empenhar algumas de suas joias, para ter com que suprir-se no caminho.
Cristão - És extremamente ingénuo! A quem havia de empenhá-las ou vendê-las? No país onde foi roubado não se dá preço às joias, e mesmo nenhum alívio teria encontrado naquele país. E, depois, que lhe faltassem as joias, quando chegasse à porta da Cidade Celestial, seria excluído (o que ele bem sabia) da herança que ali se encontrara, o que por certo lhe seria mais sensível do que o ataque e os maus tratos de milhares de ladrões.
Esperança - Peço que não respondas com tamanha aspereza às minhas perguntas. Não sejas desabrido [áspero] para comigo, e ouve-me. Esaú vendeu a sua primogenitura por um prato de comida (Hebreus 12:16), e essa primogenitura era a sua joia preciosa. Ora, se ele fez isto, por que não havia Pouca-Fé de fazer o mesmo?
Cristão - Esaú vendeu efetivamente a sua primogenitura, e a exemplo dele têm procedido muitos outros que, por esse fato, perderam a bênção maior, como aconteceu àquele desgraçado. Mas há diferença entre Esaú e Pouca-Fé, como também entre as circunstâncias dum e as doutro.
A primogenitura de Esaú era típica, caso que se não dava com as joias de Pouca-Fé. Esaú não tinha outro deus que não fosse o seu ventre, não assim Pouca-Fé: a necessidade de Esaú não passava do desejo de satisfazer o apetite carnal; e a necessidade de Pouca-Fé era doutro gênero. Além do que, Esaú não se lembrava senão de satisfazer o apetite, e por isso exclamou: -Eu vou morrer; para que me serve logo a primogenitura?" (Gen. 25:32).
Mas Pouca-Fé, apesar de ter pouca fé, possuía alguma, e foi essa que obstou a que ele praticasse a extravagância de se desfazer das suas joias, como fez Esaú, e preferisse vê-las e apreciá-las. Em parte alguma lerás que Esaú tivesse fé, por pouca que fosse, e por isso não é para admirar que aquele em que só impera a carne (o que sempre acontece com o homem que não tem fé para resistir) venda a sua primogenitura, a sua alma, e tudo quanto é, quanto tem, ao próprio demônio - porque esses homens são semelhantes à jumenta silvestre que ninguém pode deter (Jeremias 2:24).
Quando os seus corações estão sujeitos às suas concupiscências, hão de satisfazê-las, custe o que custar; mas Pouca-Fé era dum temperamento muito diferente; o seu coração inclinava-se para as coisas divinas, e o seu alimento era das coisas celestiais e espirituais.
Para que havia, pois, de vender as suas joias, caso encontrasse quem lhas comprasse, para encher o seu coração de coisas vãs? Dará alguém seu dinheiro para encher o seu ventre de palha? Poderá alguém persuadir a rola a alimentar-se de carne em putrefação como o corvo?
Ainda que os infiéis, para servirem as suas concupiscências carnais hipotequem ou vendam o que são e o que possuem, todavia os que têm fé, a fé que salva, por pouca que seja, nunca poderão imitá-los. Aqui tens explicado, querido irmão, o equívoco em que estavas.
Esperança - Reconheço-o agora, mas confesso-te que a tua severa reflexão quase que me ia enfadando.
Cristão - Por que? Não fiz mais do que comparar a tua ingenuidade à dum pinto mais esperto, que deita a correr por caminhos conhecidos e desconhecidos, ainda pegado à casca. Mas vamos, desculpa isso, e tratemos do assunto que estamos discutindo.
Esperança - Eu estou persuadido, no meu coração, de que esses três malvados foram muito covardes, por fugirem quando ouviram os passos daquele que se aproximava. Por que não se armou Pouca-Fé de mais algum valor? Parece-me que deveria ter-se arriscado a combater contra eles, e que só deveria ter cedido quando não houvesse mais remédio.
Cristão - Sim, muitos lhe chamaram covarde, porém são poucos os que na hora da provação têm ânimo para se sustentarem. Grande coragem não tinha Pouca-Fé, e, pelas tuas palavras, vejo que tu, em seu lugar, só te arriscarias a um pequeno combate, cedendo logo em seguida. Na verdade, se agora, que estamos longe dos três malvados, mostras esse ânimo, receio que fossem muito diferentes os teus pensamentos, caso esses homens te acometessem como acometeram a Pouca-Fé.
E deves considerar que eles não passavam de ladrões subalternos, servos do rei do abismo insondável, o qual rei, se fosse necessário, viria em seu auxílio, e a sua voz é como a do leão rugidor (I Pedro 5:8). Eu mesmo fui assaltado como Pouca-Fé, e sei, por experiência própria, quão rudes são esses ataques.
Os três malvados acometeram-me, tendo eu começado a resistir-lhes como bom cristão, soltaram um pequeno grito, ao qual acudiu seu amo no mesmo instante. A minha vida estaria por pouco, se não me protegesse a armadura toda a prova de que eu ia vestindo por vontade de Deus; e, ainda assim, apenas pude sair airoso [vitorioso] do combate. Só quem se tem visto em tão duros transes os pode bem avaliar.
Esperança - É verdade. Mas, logo que supuseram que Grande-Graça se aproximava, deitaram a fugir.
Cristão - Tanto eles como seu amo têm fugido muitas vezes da simples presença de Grande-Graça, o que não é para estranhar, por ser este o campeão real; e creio que deves admitir alguma diferença entre Pouca-Fé e o campeão do rei; nem todos os súditos do rei são seus campeões, por conseguinte, nem todos podem fazer prodígios de valor na ocasião da prova.
Pode, porventura, supor-se que um menino qualquer vencesse a Golias como fez Davi, ou que haja uma avezinha com a força dum touro? Uns sãos fortes, outros débeis; uns têm muita fé, outros têm pouca. Pouca-Fé era dos débeis, e por isso cedeu.
Desfrute mais:
Hino - Conforto nas Provações - "Pelo Cuidado do Senhor"
1 Peregrino no caminho,
E exausto do labor –
Ouve tais palavras doces:
“Dá teus fardos ao Senhor!”
Dá teus fardos ao Senhor!
Dá teus fardos ao Senhor!
Vai te fortalecer
E confortar teu ser –
Dá teus fardos ao Senhor!
2 Os teus pés estão cansados?
Tua lâmpada, sem luz?
Tua cruz está pesada?
“Dá teus fardos a Jesus!”
Dá teus fardos ao Senhor!
Dá teus fardos ao Senhor!
Vai te fortalecer
E confortar teu ser –
Dá teus fardos ao Senhor!
3 Teus amigos te deixaram?
Não te dão mais seu amor?
Tu estás angustiado?
“Dá teus fardos ao Senhor!”
Dá teus fardos ao Senhor!
Dá teus fardos ao Senhor!
Vai te fortalecer
E confortar teu ser –
Dá teus fardos ao Senhor!
4 O teu coração é fraco?
Tua mente, sem vigor?
Tua força é tão fraca?
“Dá teus fardos ao Senhor!”
Dá teus fardos ao Senhor!
Dá teus fardos ao Senhor!
Vai te fortalecer
E confortar teu ser –
Dá teus fardos ao Senhor!
5 Ele vai te sustentar, sim,
Guiará com Seu fulgor;
Com poder irá guardar-te,
Te dará o Seu vigor.
Dá teus fardos ao Senhor!
Dá teus fardos ao Senhor!
Vai te fortalecer
E confortar teu ser –
Dá teus fardos ao Senhor!

Nenhum comentário:
Postar um comentário