quarta-feira, 16 de julho de 2025

O Peregrino, semana 5, sexta, capítulo 17

O PEREGRINO

VIAGEM DO CRISTÃO
À CIDADE CELESTIAL

CAPÍTULO 17

SEMANA 5 - SEXTA

Ler e orar: "Tens visto a um homem que é sábio a seus próprios  olhos? Maior esperança há no insensato do que nele." (Pv 26:12)


A conversa com Ignorância
e a situação terrível de Volta-Atrás


E de novo adormeci e tornei a sonhar. Vi os dois peregrinos descendo das montanhas pelo caminho da cidade.

Mais abaixo das montanhas há um país chamado das Ideias Fantásticas, do qual sai, para a estrada por onde iam os peregrinos, um tortuoso atalho. Encontraram aí um jovem, meio idiota, que vinha do tal país. Chamava-se Ignorância. Perguntando-lhe Cristão donde e para onde se dirigia, respondeu:

Ignorância - Sou natural daquele país que fica à mão esquerda, e vou à Cidade Celestial.

Cristão - E como crês tu que podes lá entrar? Olha que é possível que encontres alguma dificuldade à porta.

Ignorância - Eu hei de entrar do mesmo modo que entram outras pessoas de bem.

Cristão - O que podes tu apresentar, para que te franqueiem [permitam] a entrada?

Ignorância - Conheço a vontade do meu Senhor, e tenho vivido honradamente; dou a cada um o que lhe pertence, rezo, jejuo, pago dízimos, dou esmolas, e abandonei a minha pátria para me dirigir à Cidade Celestial.

Cristão - Mas tu não entraste pela porta que está no princípio desta entrada. Seguiste pela vereda tortuosa, e por isso, temo que, por melhor ideia que de ti formes, no dia das contas, quando fores a entrar na cidade, te acusem de ladrão e roubador.

Ignorância - Meus senhores, sois inteiramente estranhos para mim, e não vos conheço. Segui vós a religião do 

Ignorância - Meus senhores, sois inteiramente estranhos para mim, e não vos conheço. Segui vós a religião do vosso país, que eu irei seguindo a do meu, e espero que todos sairemos bem.

Quanto à porta de que me falais, todo o mundo sabe que fica muito longe do nosso país, e não creio que haja em todo ele quem conheça o caminho que a ela conduz. Nem com isso devemos importar-nos, pois temos, como vedes, um atalho fresco e agradável que vem dar a esta estrada.

Cristão vendo este homem que assim se tinha por sábio, disse em voz baixa a Esperança: "Maior esperança há para o tolo do que para este"(Prov. 26:12); e acrescentou: "Falta-lhe o entendimento, e diz a todos que é tolo" (Ecl. 10:3). Que dizes? Vamos conversando com ele, ou apressemo-nos e deixemo-lo para meditar no que lhe dissemos, esperando logo por ele, para ver se, pouco a pouco, é possível fazer-lhe algum bem?

Esperança - Sou do mesmo parecer; não acho bom dizer-lhe tudo de uma vez; deixemo-lo só por agora, e logo tornaremos a falar-lhe, quando se nos oferecer ocasião. Adiantaram-se, pois, e Ignorância foi caminhando um pouco mais atrás. Pouco tinham andado, quando chegaram a um sítio muito estreito e escuro, onde encontraram um homem atado com grossas cordas por sete demônios que outra vez o conduziam para o postigo que tinham visto na falda [pé] da montanha.

Um grande temor se apoderou dos nossos peregrinos, ao presenciarem tal espetáculo. Apesar disso, quando os demônios passaram com o homem, Cristão olhou-o com atenção, para ver se o conhecia, por lhe parecer que fosse um tal Volta-Atrás que vivia na cidade da Apostasia; mas não pôde ver-lhe as feições porque levava o rosto baixo, como um ladrão que acaba de ser surpreendido. Depois de ter passado, viu Esperança que ele levava um letreiro nas costas, que dizia: Cristão licenciado, e maldito apóstata. Cristão disse então para seu companheiro:

Vou agora contar uma história que me narravam, com referência a um homem destes sítios. Chamava-se ele Pouca-Fé, mas era homem muito respeitável e vivia na cidade da Sinceridade.

Junto à entrada da estreita passagem que vamos atravessando, desemboca uma vereda que vem da porta do caminho largo, a qual tem por nome Vereda-dos-Mortos, por causa dos muitos assassinatos que nela se cometem. Ora, o tal Pouca-Fé, vindo em peregrinação, como agora vamos, assentou-se casualmente neste lugar, e adormeceu. Naquela ocasião desciam a vereda que vem do caminho largo três vilões afamados, Covardia, Desconfiança e Culpa, todos irmãos, os quais, descobrindo Pouca-Fé adormecido, deitaram a correr para ele. Neste momento acordava o infeliz peregrino, e dispunha-se a continuar sua viagem.

Logo que os três se acercaram dele, intimaram-no a parar com modos ameaçadores. Pouca-Fé empalideceu e não teve forças para lutar nem para fugir. Nisto exclamou Covardia: Entrega-nos a tua bolsa. E, como o peregrino se demorasse em satisfazer esta ordem (porque lhe pesava perder o seu dinheiro), correu para ele Desconfiança, que lhe meteu a mão na algibeira [bolso], tirando uma pequena bolsa cheia de prata. Pouca-fé gritou em altos brados que o roubavam, mas Culpa, que tinha na mão um formidável cacete, descarregou-lhe tão tremendo golpe na cabeça que o prostrou no chão, onde ficou vertendo torrentes de sangue.

Os ladrões achavam-se em volta de sua vítima, mas, de repente sentindo passos de alguém que se aproximava e temendo que fosse um tal Grande-Graça, da cidade de Boa Esperança fugiram a toda pressa, deixando o pobre homem abandonado.

Esperança - E levaram tudo que ele trazia de valor?

Cristão - Não. Faltou-lhes revistar o lugar em que trazia escondidas suas joias, mas, segundo me contaram, o pobre homem sentiu muito o roubo que lhe fizeram, porque os ladrões levaram-lhe quase todo dinheiro que trazia para as despesas ordinárias. E verdade que ainda lhe ficaram algumas moedas miúdas mas essas não chegavam para os gastos da viagem.

Mais: Disseram-me que se viu obrigado a mendigar para poder viver, pois não lhe era permitido desfazer-se das suas joias. Porém, apesar de pedir esmolas, continuou a caminhar, quase sempre com o ventre vazio (I Ped. 1:18).

Esperança - Acho muito estranho que não lhe tirassem o pergaminho mediante o qual devia ser franqueada a entrada na Cidade Celestial.

Cristão - E realmente estranho, mas se não lho tiraram, não foi isso devido à sua habilidade, pois ficou tão aterrado com o ataque dos três facínoras que não teve forças nem artes para ocultar coisa alguma. Deveu mais à providência do que aos próprios esforços a fortuna de ficar de posse de tão apreciável documento.


Desfrute mais:

Hino - Pregação do Evangelho - "Resgatar os que Estão Perecendo"

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