quinta-feira, 24 de julho de 2025

O Peregrino, semana 6, quinta, capítulo 19

O PEREGRINO

VIAGEM DO CRISTÃO
À CIDADE CELESTIAL

CAPÍTULO 19

SEMANA 6 - QUINTA

Ler e orar: "Esse amor não tem medo, pois o perfeito amor afasta todo medo. Se temos medo, é porque tememos o castigo, e isso mostra que ainda não experimentamos plenamente o amor.(1 Jo 4:18)


Os peregrinos tornam a falar com Ignorância (2)

Ignorância - Julgas que sou tão néscio que suponha que Deus não vê senão o que vejo, ou que me atreveria a apresentar-me na Sua presença com a melhor das obras?

Cristão - Pois se não julgas isso, o que é que julgas?

Ignorância - Em poucas palavras vou dizer: Creio que é necessário ter fé em Cristo para ser justificado.

Cristão - Como? Pensas que podes ter fé em Cristo não vendo a necessidade dele, nem conhecendo as tuas fraquezas originais e atuais, antes tendo, a teu respeito e do que fazes, uma opinião tal que mui claramente prova que nunca reconheceste a necessidade da justiça pessoal de Cristo para te justificar diante de Deus? Como podes dizer: "Creio em Cristo"?

Ignorância - Creio, e bastante, apesar de tudo isso.

Cristão - E como crês?

Ignorância - Creio que Cristo morreu pelos pecadores, e que serei justificado diante de Deus e ficarei livre da maldição, se aceitar a minha obediência à Sua lei. Por outras palavras: Cristo faz com que os meus deveres religiosos sejam aceitos pelo Pai, em virtude dos seus merecimentos, e assim eu sou justificado.

Cristão - Permite-me que me oponha à tua profissão de fé.

1º) Tens uma fé imaginária, porque tal fé não encontro descrita em parte alguma da Palavra de Deus.

2º) Tens uma fé falsa, porque pões de parte a justificação pela justiça pessoal de Cristo, e aplicas a tua própria justiça.

3º) Essa fé faz com que Cristo seja o que justifica não a tua pessoa, mas as tuas ações, o que é falso.

4º) Finalmente, a tua fé é enganosa, a ponto de deixar-te debaixo da ira do Deus Altíssimo, porque a verdadeira fé, que justifica, faz com que a alma convicta do seu estado de perdição pela lei, busque como refúgio a justiça de Cristo, justiça que não consiste num só ato de graça, em que a tua obediência seja aceita por Deus para justificação, mas na obediência pessoal de Cristo à lei, em fazer sofrer por nós o que de nós se exige. Esta é a justiça que a verdadeira fé aceita, e que cobre sob o seu manto a nossa alma, que por isso se apresenta sem mancha diante de Deus, sendo aceita e absolvida da condenação.

Ignorância - Queres então que confiemos simplesmente no que Cristo fez, sem entrarmos com o concurso das nossas pessoas? Essa fantasia daria livre curso às nossas concupiscências, e permitiria que vivêssemos como melhor nos aprouvesse: porque, o que havia de importar-nos o modo de viver, se pudéssemos ser inteiramente justificados pela justiça pessoal de Cristo, só por nela termos fé?

Cristão - Ignorância te chamas, e bem demonstras nessa tua resposta. Ignoras o que é a justiça que justifica, e também ignoras como hás de livrar a tua alma, por esta fé, da terrível ira de Deus. Ignoras os verdadeiros efeitos desta fé salvadora na justiça de Cristo, que são: dobrar e ganhar o coração para Deus em Cristo, amando o Seu nome, a Sua Palavra, os Seus caminhos, e o Seu povo, e não como tu, na tua ignorância, os imaginas.

Esperança - Pergunta-lhe se alguma vez se lhe revelou Cristo.

Ignorância - Que? És tu daqueles que acreditam em revelações? Ora! Parece-me que o que dizes sobre esse ponto não é mais do que o fruto dum cérebro em desarranjo.

Esperança - Homem! Cristo está em Deus dum modo tão incompreensível a toda a carne, que ninguém pode conhecê-lo duma maneira salvadora, se o Deus Pai lho não revelar.

Ignorância - Isso será a tua crença, mas não a minha, posto que não duvide de que a minha seja tão boa como a tua, apesar de a minha cabeça estar em melhor estado do que a tua.

Cristão - Permita-me que entre também na conversa. Não se deve falar tão lisonjeiramente neste assunto, pois eu afirmo resoluta e categoricamente que ninguém pode conhecer a Jesus Cristo senão pela revelação do Pai. Ainda mais: que a fé para ser reta, há de ser operada pela super-eminente grandeza do Seu poder (Mateus 11:27: 1 Coríntios 12:3: Efésios 1:17-20).

Vejo, pobre Ignorância, que nada sabes desta operação da fé. Desperta, pois, reconhece a tua própria miséria, e recorre ao Senhor Jesus, e pela sua justiça, que é a justiça de Deus (porque Ele mesmo é Deus), serás livre da condenação.

Ignorância - Muito depressa andais! Não posso acompanhar-vos nesse passo. Ide adiante, que eu não tenho pressa.

E despediu- se deles.

Disse então Cristão ao seu companheiro:

- Vamos bem, Esperança. Está visto que temos de ir outra vez sós.

Alargaram o passo, enquanto Ignorância os seguia coxeando, e ouviu-lhes o seguinte diálogo:

Cristão - Tenho dó desse pobre moço!

Esperança - Infelizmente há muitos na nossa cidade em idênticas circunstâncias, famílias inteiras, ruas inteiras: e, se há tantos na nossa cidade, onde todos são peregrinos, o que será na terra onde Ignorância nasceu?

Cristão - Bem verdadeira é a palavra: Cerrou-lhes [fechou-lhes] os olhos para que não vejam...

Agora, porém, que estamos outra vez sós, dize-me: Que te parecem estes homens? Crês que tenham alguma vez convicção do pecado, e que temam, por conseguinte, o estado de perigo em que se encontram?

Esperança - A essa pergunta ninguém melhor do que tu saberá responder, pois és mais competente do que eu.

Cristão - Sou da opinião que é possível que o sintam uma ou outra vez, mas, como são ignorantes por natureza, não compreendem que esta convicção lhes é proveitosa, e buscam afogá-la, por todos os modos, continuando a adular-se a si mesmos, no caminho de seus próprios corações.

Esperança - Com efeito, também creio, como tu, que o medo¹ serve muito para bem dos homens e para os fazer ir direitos ao princípio da sua peregrinação.

Cristão - Não podemos duvidar de que é bom, por que assim o diz a palavra: "O temor de Deus é o princípio da sabedoria" (Jó 28:28: Salmos 111:10: Provérbios 1:7: 9:10).

Esperança - Como se poderá reconhecer o medo que é bom¹?

Cristão - O medo bom reconhece-se por três coisas:

1ª) Pela sua origem: é causado pelas convicções salvadoras do pecado:

2ª) Impele a alma a acercar-se de Cristo para a salvação:

3ª) Gera e conserva na alma uma grande reverência para com Deus, para com a Sua palavra e Seus caminhos, mantendo-a constante e terna, e fazendo-a temer de se apartar deles, para outro lado, ou de fazer qualquer coisa que possa desonrar a Deus, alterar a sua paz, contristar o Espírito Santo, ou dar ocasião a que o inimigo tome alguma vantagem.

__________________

¹ Nesse contexto a palavra "medo" deve ser entendida como um sentimento de temor, reverência e respeito. Na Bíblia, o medo não vem de Deus e é apresentado como um sentimento de imaturidade espiritual (1 João 4:18).


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