quinta-feira, 24 de julho de 2025

O Peregrino, semana 6, sexta, capítulo 19

O PEREGRINO

VIAGEM DO CRISTÃO
À CIDADE CELESTIAL

CAPÍTULO 19

SEMANA 6 - SEXTA

Ler e orar: "Quando te desviares para a direita e quando te desviares para a esquerda, os teus ouvidos ouvirão atrás de ti uma palavra, dizendo: Este é o caminho, andai por ele." (Is 30:21)


Os peregrinos conversam sobre Temporário

Esperança - Estou de acordo. Creio que disseste a verdade. Mas dize-me: ainda não saímos do terreno encantado?

Cristão - Vais aborrecido de nossa conversação?

Esperança - Não, mas desejava saber onde estamos.

Cristão - Ainda nos falta perto de uma légua para sairmos deste terreno. Mas, voltando ao assunto: os ignorantes não conhecem que tais convicções, que os atemorizam, são para seu bem e por isso procuram afogá-las.

Esperança - E como procuram fazê-lo?

Cristão:

1º) Creem que esses temores são obra do demônio (sendo, na verdade, de Deus), e por isso lhe resistem com a coisa que tende diretamente à sua ruína.

2º) Pensam também que os tais temores tendem a prejudicar-lhes a fé, quando (desgraçados que são!) nenhuma têm, e por isso endurecem contra eles os seus corações.

3º) Supõem que não devem temer, e por isso, apesar de seus temores, tornam-se vãmente confiados [Jr 17:5].

4º) Julgam que esses temores tendem a aviltar a sua própria santidade, antiga e miserável, e por isso lhes resistem todas as forças.

Esperança - Eu mesmo experimentei algumas dessas coisas, porque antes de me convencer passei pelo que acabas de dizer.

Cristão - Bem. Deixemos por agora o nosso vizinho Ignorância, e passemos a outra coisa proveitosa.

Esperança - Da melhor boa vontade. Propõe tu essa nova questão.

Cristão - Conheceste na tua terra, haverá [havia] dez anos, um tal Temporário, que era nessa época homem bastante fervoroso em religião?

Esperança - Perfeitamente. Ainda não me esqueci: ele morava em Sem-Graça, aldeia que dista cerca de meia légua de Honestidade, em uma casa junto à dum tal Retrocesso.

Cristão - Isso mesmo. Vivia com ele debaixo do mesmo teto. Pois esse Temporário esteve uma vez muito bem encaminhado. Creio que nessa época tinha alguma convicção de seus pecados e do estipêndio [castigo] que se lhes deve.

Esperança - Lembro-me disso perfeitamente. A sua casa não distava mais do que uma légua da minha, e muitas vezes veio ele ter comigo, banhado em lágrimas. Contristava-me, e não perdi de todo as esperanças que nele fundava. Está, porém, visto que nem todos os que clamam "Senhor!" são cristãos.

Cristão - Temporário disse-me uma vez que estava resolvido a fazer-se peregrino, como nós agora somos, mas travou conhecimento com um tal Salvação-Própria, e deixou a minha amizade desde então.

Esperança - Já que falamos dele, investiguemos a razão da sua apostasia repentina, e da de outros como este.

Cristão - Essa investigação pode ser muito proveitosa. Agora, porém, é a tua vez de começar.

Esperança - Na minha opinião as razões são quatro:

lª) Ainda que as consciências desses homens estejam acordadas¹, os seus corações não têm diferença alguma. Por isso, quando termina o poder do pecado², acaba também o motivo que os levou a tornarem- se religiosos e voltam naturalmente aos seus costumes antigos, assim como vemos voltar o cão ao seu vomito, e a porca lavada a rojar-se na lama (II Pedro 2:22).

Buscam avidamente o céu, só porque compreendem e temem os tormentos do inferno: mas logo que resfria e enfraquece esta apreensão e este temor, também resfriam e enfraquecem os desejos que tinham, do céu, da salvação, e por isso, passado o delito e o temor, acabam esses desejos, e voltam aos antigos hábitos.

2ª) Outra razão é a de não serem temores de Deus, mas dos outros homens, e o temor do homem é um laço. De modo que, parecendo ávidos pelo céu, enquanto bramem em torno deles as chamas do inferno, logo que esse terror passa acodem-lhes outros pensamentos, tais como é bom ser cauteloso e que não é muito prudente meter-se em aflições desnecessárias, voltando assim a fazer as pazes com o mundo.

3ª) Também sucede servir-lhe de tropeço a vergonha mal entendida, que costuma acompanhar a religião: são orgulhosos e altivos, e a religião é vil e desprezível a seus olhos: e por isso, uma vez perdido o sentimento de infortúnio e da ira vindoura, voltam ao antigo modo de viver.

4ª) Aflige-os muito a ideia do pecado, e pensam nele com terror: não gostam de contemplar as suas misérias, pois, ainda que a primeira consideração os levassem a se refugiarem onde se refugiam os justos, e onde estivessem seguros, como atribuem esses pensamentos ao pecado e ao terror, uma vez que se tornaram insensíveis às suas convicções e ao temor da ira de Deus, endurecem voluntariamente os seus corações e escolhem precisamente os caminhos que mais contribuem para este engrandecimento.

Cristão - Creio que falas com bastante acerto, porque a causa principal é a falta duma mudança no seu coração e na sua vontade, pelo que se assemelham ao acusado, que quando está na presença do juiz, treme e parece arrepender-se do íntimo do coração, quando a única causa que o move é o temor do patíbulo [da forca] e não o horror do crime cometido. Dai a liberdade a esse réu, e vê-los-eis continuar a matar e a roubar como dantes: mas, se o seu coração tivesse mudado, teria também mudado a sua conduta.

Esperança - Já que te expus as razões da volta destes homens ao antigo, explica-me tu agora a maneira por que essa falta se efetua.

Cristão - Eu to digo:

1º) Desviam os seus pensamentos, quando lhes é possível, da meditação e da lembrança de Deus, da morte e do juízo futuro.

2º) Abandonam pouco a pouco, e gradualmente, os seus deveres³ particulares, como são: a oração, o refreamento das concupiscências, a vigilância em si mesmos, a dor dos pecados, etc.

3º) Vão esfriando no cumprimento dos deveres³ públicos, como: a leitura e pregação da palavra, o trato com outros cristãos, etc.

4º) Começam a censurar as pessoas piedosas, e isto duma maneira infernal, para terem desculpa aparente de lançarem fora a religião, com o pretexto dalgumas fraquezas que descobriram naqueles que a professam.

5º) Passam a aderir e a associar-se a homens carnais, lúbricos [sensuais, carnais] e levianos.

6º) Em seguida entregam-se secretamente a conversações carnais e levianas, estimando ver fazer outro tanto a alguns que são tidos por honrados, para contestarem o seu procedimento e poderem prosseguir mais ousadamente.

7º) Enfim, começam a mofar [zombar] abertamente de certos pecados, dizendo que são de pouca monta [importância], e:

8º) Endurecendo-se desta maneira, manifestam-se tais quais são. E assim, lançados no abismo da miséria, se um milagre da graça o não evita, perecem para sempre nos seus próprios enganos.

_______________
¹ Para Deus, a consciência de um incrédulo está morta, pois não lhe permite conhecer sua condição pecaminosa. Se alguém que não creu no Senhor for sensível, procurará ajudar as pessoas e não fazer coisas erradas de acordo com seu conceito natural, mas sua consciência é incapaz de levá-lo ao arrependimento.

² Cristo destruiu o poder do pecado na cruz, mas esse é um fato objetivo, não significa que após crermos no Senhor estamos livres do pecado. Em nossa experiência humana, sempre que nossa consagração acabar o poder do pecado estará presente. Isso será assim até a volta do Senhor (Rm 6:12-14).

³ Apenas um sentimento de cumprir o dever não é capaz de nos manter no Caminho. Como diz o hino abaixo, precisamos ser atraídos pela beleza e pelo valor do Senhor:

"Por que eu deixei no mundo
        Os meus ídolos, sem dor?
     Não foi por dever – eu tive
        A visão do Seu valor."


Desfrute mais:

Hino - Consagração - "Atraídos pela Beleza do Senhor"

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