sábado, 19 de julho de 2025

O Peregrino, semana 6, segunda, capítulo 18

O PEREGRINO

VIAGEM DO CRISTÃO
À CIDADE CELESTIAL

CAPÍTULO 18

SEMANA 6 - SEGUNDA

Ler e orar: "Não vos escrevi porque não saibais a verdade; antes, porque a sabeis, e porque mentira alguma jamais procede da verdade." (1 Jo 2:21)


Os peregrinos encontram Ateu, a quem resistem com as doutrinas da Bíblia. Passam pela Terra Encantada, imagem da corrupção deste mundo, em tempos de sossego e prosperidade. Meios por que se livraram dela. Vigilância, Meditação e Oração

Poucos passos haviam dado, quando avistaram um homem que avançava em direção a eles. Cristão, ao vê-lo, disse para Esperança:

Cristão - Além vejo um homem que vem ao nosso encontro voltando as costas à cidade de Sião.

Esperança - Bem o vejo; estamos apercebidos, não seja ele outro adulador.

Tendo chegado junto deles, Ateu (assim se chamava o recém-chegado), perguntou-lhes para onde se dirigiam.

Cristão - Para o Monte Sião. (Ateu soltou uma estrepitosa gargalhada).

Cristão - Por que te ris?

Ateu - Rio-me por ver quanto sois ignorantes, empreendendo uma viagem tão incômoda, quando a única recompensa com que podeis contar é o vosso trabalho e o enfado da viagem.

Cristão - Então te parece que não nos receberão lá?

Ateu - Lá onde? Acaso há neste mundo o lugar com que sonhais?

Cristão - Não há neste mundo, mas há no outro Ateu - Quando eu estava em casa, no meu país, ouvi falar nisso que dizeis, e saí em sua procura. Há vinte anos que ando em busca desses lugares, mas nunca os encontrei (Eclesiastes 10:13-15).

Cristão - Pois nós ouvimos e cremos que esses lugares existem, e que poderemos achá-los.

Ateu - Se eu não tivesse também acreditado, não teria ido tão longe em sua procura; mas, como não o encontrei (e, se esse lugar existisse, por certo o teria encontrado, pois o tenho procurado mais do que vós), volto para casa, e verei se posso agora consolar-me com as coisas que então pus de parte, esperançado como estava, no que, como atualmente creio, existe.

Cristão - (à Esperança): Será verdade o que este homem diz?

Esperança - Muito sentido! Este é outro Adulador. Recorda-te do que já nos custou, uma vez, prestar ouvidos a gente desta. Pois não há de haver monte de Sião?! Não avistamos nós, das montanhas das Delícias, a porta da cidade? E não devemos, além de tudo isso, andar segundo a fé? (II Cor. 5:7). Vamos; não aconteça que outra vez caia sobre nós o açoite. Não esqueçamos aquela importante lição de que devias lembrar: Não cesseis, filhos, de ouvir a doutrina, nem ignoreis a palavra da ciência; (Prov. 19:27).

Cristão - Querido irmão, não fiz esta pergunta porque duvidasse da veracidade da nossa crença, mas sim para te experimentar e para tirar uma prova da sinceridade do teu coração. Pelo que, com respeito a este homem, bem sei que está cego pelo deus do presente século; continuemos, pois, o nosso caminho, certos de que possuímos a crença da verdade, da qual não pode vir nenhuma mentira (I João 2:21).

Esperança - Agora regozijo-me na esperança da glória de Deus.

E afastaram-se daquele homem, que, rindo-se deles, seguiu o seu caminho.

Vi, então no meu sonho, que foram andando até chegarem a um certo país, cuja atmosfera torna sonolentos todos os estrangeiros.

Esperança começou a experimentar os efeitos do novo ar que respirava, e, sentindo-se muito pesado e com muito sono, disse para Cristão:

Esperança - Estou com tanto sono que mal posso ter os olhos abertos. Deitemo-nos, pois, um pouco, e durmamos. Cristão - Nem falemos nisso. Olha que podemos adormecer e não tornarmos a acordar.

Esperança - Então, por que? Irmão, o sono é doce para quem trabalha! Se dormirmos um bocado, levantar-nos-emos refrigerados.

Cristão - Não te lembras de que um dos pastores nos disse que devíamos tomar cuidado com a Terra Encantada? Neste conselho queria dizer-nos que nos abstivéssemos de dormir. Não durmamos , pois, mas velemos e sejamos sóbrios (I Tessalonicenses 5:6)

Esperança - Reconheço o meu erro e vejo que, se estivesse só, teria corrido o perigo de morrer. Bem dizia o Sábio: Melhor é estarem dois juntos do que estar um só; (Eclesiastes 4:9).

A tua companhia tem sido um bem para mim, o que já é uma boa recompensa para o meu trabalho.

Cristão - Então, para não adormecermos, comecemos um bom discurso.

Esperança - Da melhor boa vontade.

Cristão - Por onde começamos?

Esperança - Por onde Deus começou para conosco. Faze tu o favor de principiar.

Cristão - Vou então fazer-te uma pergunta: Como chegaste a pensar em fazeres o que estás fazendo agora?

Esperança - Quereis dizer, como cheguei a pensar no bem da minha alma?

Cristão - Sim, era essa a minha intenção.

Esperança - Havia já muito tempo que eu me deleitava no gozo das coisas que se viam e se vendiam na nossa feira, coisas que, segundo creio agora, me teriam sepultado na perdição e na destruição se tivesse continuado a praticá-las.

Cristão - E que coisas eram essas?

Esperança - Eram os tesouros e riquezas deste mundo. Também me deleitava muito o bulício [desordem], a embriaguez, a maledicência, a luxúria, a infração do dia do Senhor, e muitas outras coisas que todas tendiam à destruição da minha alma. Mas, por fim, ouvindo e considerando as coisas divinas, de que tu me falaste, do nosso bom e querido Fiel, que morreu, por sua fé e vida exemplar, na feira da Vaidade, vim a concluir que o fim de todas as coisas é a morte (Romanos 6:21-23) e que, por meio delas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência (Efésios 5:6).

Cristão - E ficaste logo nessa íntima convicção?

Esperança - Não, não quis conhecer desde logo a maldade do pecado, nem a condenação que se lhe segue: diligenciei, antes, quando meu espírito começava a comover-se com a palavra, fechar os olhos à luz.

Cristão - Mas para que resistias, desse modo, aos primeiros esforços do Espírito de Deus?

Esperança - Por estas coisas: 1ª) Ignorava que aquela era a obra de Deus em mim. Nunca pensei que Deus começasse a conversão dum pecador pela convicção do pecado; 2ª) O pecado era ainda muito agradável à minha carne, e eu sentia muito o ter de abandoná-lo; 3ª) Não pude despedir-me dos meus amigos e companheiros cuja presença e cujas ações tanto me alegravam; 4ª) Eram tão incomodas e tão cheias de terror as horas em que sofria por estas convicções que o meu coração não podia suportar, nem sequer a lembrança delas.

Cristão - Queres dizer que algumas vezes pudeste desembaraçar-te desse incômodo?

Esperança - Sim, mas nunca me desembaraçava de todo; de modo que tornava a ficar tão mal ou pior do que dantes.

Cristão - E o que era que, outra vez, te trazia à memória os teus pecados?

Esperança - Diferentes coisas. Por exemplo: simplesmente o encontrar na rua um homem bom; ouvir alguma leitura da Bíblia; uma simples dor de cabeça; saber que algum vizinho estava doente, ou ouvir tocar a defuntos; pensar na morte; ouvir falar de uma morte repentina, ou presenciá-la; mas, especialmente pensar no meu próprio estado, em que devia comparecer em juízo mui brevemente.


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