O PEREGRINO
À CIDADE CELESTIAL
CAPÍTULO 18
Cristão - E pudeste sentir, alguma vez, alívio ao peso dos teus pecados, quando te ocorriam esses pensamentos?
Esperança - Pelo contrário tomava esta posição mais firme na minha consciência, e só pensar que havia de voltar ao pecado (ainda que o meu coração estivesse inclinado para ele) era para mim um duplo tormento.
Cristão - E que fazias então?
Esperança - Pensava que devia fazer esforços para emendar [corrigir] a minha vida, porque doutra sorte era inevitável a minha condenação.
Cristão - Não fizeste esses esforços?
Esperança - Sim, e tornava a fugir, não só dos meus pecados, mas também dos meus companheiros de pecado; ocupava-me em práticas religiosas, tais como orar, ler, chorar meus pecados, falar na verdade a meus vizinhos, etc. Isto fazia, e muitas outras coisas que seria fastidioso e difícil enumerar.
Cristão - Já te julgavas bom, por procederes desse modo?
Esperança - Sim, mas por pouco tempo; muito depressa tornava a prostrar-me a minha aflição, apesar de toda a minha reforma.
Cristão - Mas como, se já estavas reformado?
Esperança - Por várias razões. Lembrava-me de palavra como estas: Todas as nossas justiças são como um pano imundo; (Isaías 64:6); Pelas obras da lei não será justificada toda carne; (Gálatas 2:16); Depois de terdes feito o que vos foi mandado, dizei: somos uns servos inúteis; (Lucas 17:10); e outras do mesmo estilo. Depois punha-me a discorrer deste modo.
Se todas as minhas obras de justiça são trapos imundos, se pelas obras da lei ninguém pode ser justificado, e, depois de termos feito tudo quanto nos foi mandado, somos uns servos inúteis, é loucura querer chegar ao céu pela lei. E continuava a pensar: e um homem contraiu uma dívida com certo negociante, ainda que dali em diante pague de pronto tudo quanto comprar, a sua antiga dívida continua a existir no livro de conta corrente, e, mais dia, menos dia, pode o negociante vir a demandá-lo por ela e fazê-lo prender até ser embolsado.
Cristão - E como aplicaste este raciocínio a ti mesmo?
Esperança - Pensei desta maneira. Por meus pecados, contraí uma grande dívida para com Deus, e minha atual reforma não poderá liquidar aquela conta; de modo que, apesar de todas as minhas emendas, tenho de pensar constantemente na reforma por que hei de livrar-me da condenação em que incorri por minhas transgressões anteriores.
Cristão - Esse raciocínio era verdadeiro. Continua.
Esperança - Outra coisa das que mais me afligem, desde a minha recente reforma, é a idéia de que, se me ponho a examinar minuciosamente as minhas ações, ainda as mais louváveis, sempre descubro pecado novo, pecado de envolta com tudo quanto posso de fazer melhor, de modo que me vejo obrigado a supor que, apesar das idéias falsas que outrora formava de mim e dos meus deveres, cometo em cada dia pecados bastantes para ser condenado ao inferno, ainda que a minha anterior fossem sem mácula. E que fiz? Não sabia o que havia de fazer, até que abri o meu coração a Fiel, a quem muito bem conhecia, e ele disse-me que só com a justiça dum homem que nunca tivesse pecado, me poderia salvar; nem a minha justiça, nem a de todo o mundo, era suficiente para isso.
Cristão - E pareceu-te verdade o que Fiel te dizia?
Esperança - Se mo [me] tivessem dito quando estava contente e satisfeito das minhas próprias reformas, ter-lhe-ia chamado néscio; mas, agora que reconheço a minha fraqueza, e que vejo o pecado misturado com as minhas melhores ações, vejo-me obrigado a ser da sua opinião.
Cristão - Mas, quando ele te fez conhecer essa opinião pela primeira vez, julgaste possível encontrar-se um homem de quem se pudesse dizer que nunca havia pecado?
Esperança - Devo confessar-te que, a princípio, pareceram-me muito estranhas as suas palavras; porém, depois de mais alguma conversação e de mais íntimo trato com ele, convenci-me plenamente do que dizia.
Cristão - E perguntaste-lhe quem era esse homem, e como havias de ser justificado por ele?
Esperança - Seguramente, e ele respondeu-me: É o Senhor Jesus Cristo, que está à mão direita do Altíssimo (Hebreus 10:12 e 21). E acrescentou: - Hás de ser justificado por Ele, confiando tu no que Ele próprio fez nos dias da sua carne, e no que sofreu quando estava pregado no madeiro (Romanos 4:5; Colossenses 1:14; I Pedro 1:19). Perguntei-lhe mais como podia ser que a justiça daquele homem tivesse eficácia para justificar outrem, diante de Deus, e ele disse-me que o homem de quem tratava era o Deus poderoso, e que tudo quanto fez e a morte que padeceu, não foram para Ele, mas para mim, a quem seriam imputadas as Suas obras e todo o Seu valor, se Nele cresse.
Cristão - E que fizeste depois?
Esperança - Fiz objeções contra essas doutrinas, por me parecer que o Senhor não estava disposto a salvar-me.
Cristão - E que te disse Fiel?
Esperança - Disse-me que me dirigisse a Ele, e me convenceria do contrário. Objetei-lhe que isso seria presunção da minha parte, mas Fiel desfez a objeção, recordando-me o que Jesus ditara: - Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei. E nisto deu-me um livro, para me animar a dirigir-me com mais liberdade, acrescentando que cada jota e cada til estavam mais firmes naquele livro do que o céu e a terra (Mateus 24:35).
Perguntei-lhe então o que devia eu fazer para me aproximar dEle, e ensinou-me que devia invocá-Lo de joelhos (Daniel 6: 10), que devia rogar ao Pai, de todo o coração e toda a alma (Jeremias 29:12-13), que me revelasse Seu Filho. Tornei a perguntar-lhe como deveria eu fazer as minhas rogativas, e disse-me: "Olha, e ve-lo-ás assentado num propiciatório, onde permanece todo o ano para perdoar e remir os que se aproximam", (Êxodo 25:22; Levítico 16:2; Números 7:8-9; Hebreus 4:16).
Expus-lhe que não sabia o que havia de dizer quando me apresentasse na Sua presença, e Fiel recomendou-me que lhe falasse, pouco mais ou menos, nestes termos: - "O Deus, sê propício a mim, pecador. Faze-me conhecer a Jesus Cristo, e crer nEle, porque reconheço que, se não existisse a Sua justiça, ou se não tivesse confiado nela, estaria irremediavelmente perdido. Senhor, ouvi dizer que és um Deus misericordioso, e que deste Jesus Cristo, teu Filho, como Salvador, ao mundo, e que estás disposto a concedê-Lo a um pobre pecador como eu, que, na verdade, sou pecador. Senhor, aproveita esta ocasião, e manifesta a tua graça na salvação da minha alma, mediante Jesus Cristo, teu Filho. Amém."
Cristão - E fizeste assim?
Esperança - Uma e muitas vezes.
Cristão - E o Pai revelou-te Seu Filho?
Esperança - Não; nem à primeira, nem à segunda, nem à terceira, nem à quarta, nem à quinta, nem à sexta vez.
Cristão - E como procedeste ao ver semelhante coisa?
Esperança - Não sabia que deliberação tomar.
Cristão - Não estiveste tentando abandonar a oração?
Esperança - Estive duzentas vezes.
Cristão - E por que o fizeste?
Esperança - Porque cria ser verdade o que Fiel me dissera, isto é, que sem a justiça deste Cristo, nem todo o mundo teria poder para me salvar. Portanto, raciocinava assim comigo mesmo: - Se o deixo, morro, e então prefiro morrer ao pé do trono da graça. Além disto, vinham-me à memória estas palavras: "Se se demorar, espera-O; porque sem falta virá e não tardará." (Hebreus 2:3). Prossegui depois em oração até que o Pai me revelasse Seu Filho.
Cristão - E como te foi revelado?
Esperança - Não o vi com os olhos do corpo, mas com os do entendimento (Efésios 1:18-19). Foi assim: Certo dia estava eu tristíssimo, mais triste, me parece, do que jamais estivera em tempo algum, sendo causada esta tristeza por uma nova revelação da magnitude e vileza dos meus pecados, e, quando eu não esperava senão o inferno e a eterna condenação da minha alma, pareceu-me ver, de repente, o Senhor Jesus, olhando-me do céu, e dizendo-me: "Crê no Senhor Jesus Cristo, e serás salvo." (Atos 16:31).
Mas Senhor, repliquei eu, sou um grande pecador, muito grande; e Ele respondeu-me: "Basta-te a minha graça." (II Coríntios 12:9). Tornei-lhe eu: Mas o que é crer ? E reconheci, por aquelas palavras, "O que vem a mim nunca terá fome, e o que crê em mim nunca terá sede." (João 6:35), que crer e ir era tudo a mesma coisa, e que aquele que vai, isto é, aquele que corre em seu coração e em seus afetos, pela salvação de Cristo, é o que realmente crê em Cristo.
Umedeceram-se os meus olhos de lágrimas, e continuei a perguntar: - Mas, Senhor, pode na verdade um pecador tão grande como eu sou, ser aceito e salvo por Ti? E Ele respondeu: "Aquele que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora." (João 6:37). E eu disse: - Mas, Senhor, que ideia hei de eu fazer a teu respeito, ao chegar-me a ti, para que a minha fé seja perfeita? E Ele me disse: "Jesus Cristo veio ao mundo para salvar aos pecadores." (I Timóteo 1:15). Donde concluí que devo achar a justiça em Sua pessoa, e a paga dos meus pecados no Seu sangue; que o que Ele fez, obedecendo à lei de Seu Pai, e submetendo-se à penalidade dessa lei, só o fez por aqueles que aceitam a Sua salvação e lhe agradecem. Então, o meu coração encheu-se de alegria, os meus olhos de lágrimas, e os meu afetos expandiram-se em amor ao nome, ao povo e aos caminhos de Jesus Cristo.
Cristão - Isso foi, na verdade, uma revelação de Cristo à tua alma. Dize-me, agora, quais os efeitos que produziu no teu espírito.
Esperança - Fez-me ver que todo mundo, apesar de toda a própria justiça, existe em estado de condenação; que Deus Pai, posto que seja Justo, pode justificar, com justiça, o pecador que a Ele vem; fez-me envergonhar da minha vida anterior, e humilhou-me, fazendo conhecer e sentir a minha própria ignorância, porque até então nunca viera ao meu coração um único pensamento, que de tal modo houvesse revelado a formosura de Jesus Cristo; fez-me desejar uma vida santa, e anelar por fazer mais alguma coisa para honra e glória do nome do Senhor; chegou a parecer-me que, se tivesse mil vidas, de bom grado as perderia por amor de Jesus!
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