O PEREGRINO
À CIDADE CELESTIAL
CAPÍTULO 20
Os peregrinos dão entrada na gloriosa cidade de Deus
Estas palavras fizeram com que Cristão ficasse muito pensativo, pelo que Esperança acrescentou: Confia, irmão, Jesus Cristo te sara. Ao ouvir isto, Cristão exclamou em alta voz: Sim, o vejo, e ouço que me diz: "Quando tu passares pelas águas eu serei contigo, e os rios não te submergirão" (Isaías 43:2).
Assim iam se animando mutuamente, e o inimigo nada pôde contra eles, de modo que os deixou, como se estivesse acorrentado, até passarem o rio. A profundidade das águas ia decrescendo, e em breve encontraram terreno em que puderam firmar os pés.
Que grande consolação experimentaram, quando viram outra vez na margem oposta os dois Resplandecentes que, saudando-os, lhes diziam: Somos espíritos administradores, enviados para serviço em favor dos que hão de ser herdeiros da salvação (Hebreus 1:14). E cada vez se aproximavam mais da porta.
Deve-se notar que a cidade está edificada sobre uma grande montanha, mas os peregrinos subiam-na com facilidade, porque iam pelo braço dos Resplandecentes; além do que tinham deixado atrás de si, no rio, os seus vestidos dos mortais. Subiam, pois com a maior agilidade, apesar de estarem mais altos do que as nuvens, os fundamentos sobre que se assenta a cidade. Com que prazer eles transpuseram as diversas regiões da atmosfera; falando entre si docemente, e cheios de consolação por terem atravessado o rio a salvo, e por terem a seu serviço tão gloriosos companheiros!
Quão agradáveis lhes era a conversação que tinham com os Resplandecentes! Ali, diziam eles, há uma glória e uma formosura inefáveis; ali está o monte Sião e a Jerusalém Celestial, a companhia de muitos milhares de anjos e os espíritos dos justos já perfeitos (Hebreus 12:22-24).
Já estais perto do Paraíso de Deus, onde vereis a árvore da vida e comereis do fruto inacessível. Recebereis, quando entrardes, vestidos brancos, e o vosso trato e conversação com Rei durará pelos dias de toda a eternidade (Apocalipse 2:7; 4:5; 22:5). Não tornareis a ver ali o que víeis e sentíeis na região inferior da Terra, isto é, dor, enfermidade, aflição e morte, porque tudo isso é já passado (Isaías 65:16-17), Ides juntar-vos com Abraão, com Isaque, com Jacó, e com os profetas, a quem Deus livrou do mal futuro, e ora descansam em seus leitos, por haverem andado em justiça. Ides receber consolação por todos os vossos trabalhos, e gozo por toda a vossa tristeza: recolhereis o que semeastes, isto é, o fruto de todas as vossas orações, e das lágrimas e sofrimentos que pelo Rei passastes no caminho da vossa peregrinação (Gálatas 6:78).
Cingireis coroas de ouro, e gozareis a perpétua vista e presença do SANTO, porque ali o vereis como Ele é (I João 3:2).
Servireis continuamente com louvores, com vozes de júbilo e com ação de graças. Aquele a quem desejáveis servir no mundo com bastante dificuldade, por causa da fraqueza da vossa carne. Os vossos olhos regozijar-se-ão com a vista, e vós mesmos com a doce voz do Altíssimo; recuperareis a companhia dos amigos que vos precederam, e recebereis com alegria todos aqueles que vos precederam, e recebereis com alegria todos aqueles que vos seguirem no lugar santo.
Ser-vos-ão dados vestidos de glória e de majestade, e quando o Rei da glória vier das nuvens, ao som da trombeta, como sobre as asas do vento, vireis vós com Ele; quando se assentar no trono do julgamento, assentar-vos-eis a seu lado; quando pronunciar a sentença contra os que obraram iniquidade, ou sejam anjos ou homens, tereis também voz nesse julgamento; e, quando voltar para a cidade, voltareis com Ele ao som da trombeta e ficareis com Ele para sempre (I Tessalonicenses 4:13-17; Judas 14:15; Daniel 7:9-10; I Coríntios 6:2-30).
Quando iam chegando à porta, eis que uma multidão das hostes celestiais saiu ao seu encontro, perguntando: Quem são estes e donde vieram? Responderam os Resplandecentes: São homens que amaram nosso Senhor quando estavam no mundo, e tudo deixaram pelo seu santo nome; enviou-nos Ele para os trazermos aqui, e temo-los acompanhado na sua desejada viagem, para que entrem e contemplem o seu Redentor face a face, com grande gozo. E as hostes celestiais deram vozes de júbilos, e exclamaram: Bem-aventurados os que são chamados à ceia do Cordeiro. (Apocalipse l9:9).
Ao ouvirem estas palavras, os músicos do Rei tocaram em seus instrumentos suaves melodias, que ressoavam nos céus, e com vozes e gestos de alegria, cantando e fazendo soar seus instrumentos, saudaram uma e mil vezes aos que vinham do mundo. Puseram-se uns à direita, uns à esquerda, uns adiante, outros atrás, como para os acompanhar e perseverar nas regiões superiores, enchendo os espaços de sons melodiosos, de modo que parecia que o próprio céu tinha vindo recebê-los; era a marcha triunfal mais formosa que se tem visto.
Tudo indicava aos dois peregrinos quão bem-vindos eram à cidade, e com quanta alegria eram recebidos. Já a avistavam, já ouviam os alegres repiques de todos os sinos que saudavam a sua chegada. Oh! Que pensamentos tão alegres e arrebatadores lhes acudiam ao verem o júbilo da cidade, a companhia que iam gozar, e para sempre! Que língua ou que pena poderiam exprimi-los?
Ei-los chegados à porta da cidade, sobre a qual viram gravadas, com letras de ouro, as seguintes palavras: "Bem-aventurados aqueles que lavam as suas vestimentas no sangue do Cordeiro, para terem parte na árvore da vida e para entrarem na cidade pelas portas." (Apocalipse 22:14).
Bateram com força, e logo apareceram por cima da porta os rostos dos que moravam lá dentro... Enoque, Moisés, Elias... que, perguntando quem batia, obtiveram esta resposta: São dois peregrinos que vieram da cidade da Destruição, pelo amor que têm ao Rei deste lugar.
Então, cada um dos peregrinos entregou o pergaminho que recebera no princípio, e, tendo sido esses documentos levados ao Rei e lidos por Ele, mandou abrir as portas aos peregrinos, para que entrasse a gente justa, guardadora da verdade. (Isaías 26:2).
Vi-os, então, entrar, e que, depois de terem transposto a porta, foram transfigurados e receberam vestidos que resplandeciam como ouro, e harpas e coroas que lhes foram entregues, para que, com as primeiras entoassem louvores, e as segundas lhes servissem de distintivo de honra.
Ouvi tornarem a repicar os sinos da cidade, em sinal de regozijo, ao mesmo tempo que os ministros do Rei diziam aos peregrinos: "Entrai no gozo do nosso Senhor!" (Mateus 25:23). E eles responderam com alegria e efusão: "Ao que está assentado no trono, e ao Cordeiro, seja bênção, honra e glória e poder, para todo o sempre!" (Apocalipse 5:13).
Aproveitei o momento em que se abriam as portas para eles passarem, e olhei para dentro; eis que vi a cidade que brilhava como sol; as ruas eram calçadas a ouro, e passeava por elas uma multidão de homens com coroas na cabeça, palmas e harpas de ouro nas mãos, cantando louvores.
Vi também que uns tinham asas, e que cantavam sem interrupção: "Santo, Santo, Santo é o Senhor." E tornaram a fechar as portas, e eu fiquei de fora, cheio de pesar, pois anelava por entrar e gozar as coisas que tinha visto.
Pena foi que o meu sonho não acabasse com tão doces impressões. Depois de fechadas as portas, olhei para trás e vi Ignorância, que chegava à margem do rio; passou depressa e sem metade das dificuldades que os peregrinos tinham encontrado. E aconteceu assim, porque estava ali um barquinho chamado Vã-Esperança, que o ajudou a passar na sua barca.
Ignorância subiu também a montanha em direção à porta, mas ninguém foi ao seu encontro para o ajudar, nem para lhes dirigir uma palavra de estímulo ou de consolação. Chegando à porta, olhou para o letreiro que a encimava. Começou a bater, supondo que franqueariam a entrada, mas os que lhe apareceram por cima da porta perguntaram-lhe donde vinha e o que queria.
Respondeu-lhes Ignorância: Comi e bebi presença do Rei, e Ele ensinou nas nossas ruas. Dá-nos então o diploma para o mostrarmos ao Rei. Ignorância procurou em seu seio, mas nada encontrou. Não tinha diploma algum. Disseram-lhe, pois: Não tens diploma? Ignorância nada respondeu.
Comunicado o Rei o que acontecia, ordenou Ele aos Resplandecentes que atassem Ignorância de pés e mãos, e o lançassem fora; e vi que o levavam pelos ares até a porta que eu tinha visto na falda da serra, e que dali o precipitaram¹.
Fiquei surpreendido; mas serviu-me isto de importante lição, pois fiquei sabendo que da porta do céu há caminho para o inferno¹, do mesmo modo que o há na cidade da Destruição.
E nisto. . . acordei, e vi que tudo fora um sonho.
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¹ Inferno: vemos em todo o livro um forte conceito de arminianismo, uma corrente teológica articulada pela primeira vez por Jacobus Arminius no início do século XVII, nos Países Baixos, portanto anterior à John Bunyan, autor desse livro. Arminius, embora inicialmente tenha estudado com Teodoro de Beza (sucessor de João Calvino), desenvolveu suas próprias ideias, especialmente em relação à livre vontade humana e à expiação universal.
Para os arminianos, um crente pode se afastar da fé a ponto de perder sua salvação, algo que a Bíblia não ensina. A maior falta entre os crentes que apoiam essa ideia de Arminius é não compreender o ensino do reino dos céus. Para eles, o reino milenar e a Nova Jerusalém se confundem.
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