O PEREGRINO
À CIDADE CELESTIAL
CAPÍTULO 20
Ler e orar: ""Nunca mais te chamarão: Desamparada, nem a tua terra se denominará jamais: Desolada; mas chamar-te-ão: Hefzibá¹, e à tua terra: Beulá²; porque o Senhor se deleita em ti, e a tua terra se casará." (Is 62:4)
Depois das agradáveis práticas que acabo de referir, vi, em meu sonho, que os peregrinos tinham já passado a terra encantada, e estavam à entrada do país de Beulá (Isaías 62:4-12; Cantares 2:10-12).
Mui doce e agradável era o ar desse país que atravessavam, e onde se alegraram por algum tempo. Recreavam-se em ouvir o canto das aves e a voz das rolas, e em ver as flores que juncavam os prados. Nesse país o dia é permanente, brilhante o sol em todo o seu esplendor, pelo que está inteiramente fora dos limites do Vale da Sombra da Morte e do domínio do gigante Desespero; nem dali se avista a menor parte do Castelo da Dúvida.
Achavam-se os peregrinos muito próximos da Cidade para onde iam, e mais duma vez encontram habitantes delas, pois os Resplandecentes costumavam passear por aqueles sítios, que ficavam por assim dizer, dentro dos limites do céu.
Foi nesse país que se renovou o contrato entre o Esposo e a Esposa, e, assim como eles se rejubilam mutuamente, assim goza com eles o seu Deus. Não faltava ali, nem trigo, nem vinho, pois havia abundância de tudo quanto tinham buscado em toda a sua peregrinação.
Ouviam-se grandes vozes, que partiam da cidade, exclamando: "Dizei à filha de Sião: Eis aqui vem o teu Salvador, eis aqui a sua recompensa com Ele" (Is 62:11).
Finalmente, os habitantes do país chamaram-se povo santo, redimidos do Senhor, etc. Ditosos eles! Quanto mais se internavam [entravam] naquele país, maior era o seu regozijo; e, quanto mais se aproximavam da cidade, tanto mais perfeita e magnífica era a vista que se patenteava a seus olhos.
Era a cidade construída de pérolas e pedras preciosas, as ruas calçadas a ouro, de modo que o brilho natural e o reflexo dos raios do sol fizeram com que Cristão adoecesse de desejos. Esperança também se sentiu atacado desta enfermidade, pelo que se detiveram um pouco para descansarem, exclamando no meio da sua ansiedade: Se encontrares o meu amado, faze-lhe saber como de amor estou enfermo; (Cantares 5:8). Em breve ser fortaleceram e, achando-se mais dispostos a arrastar com a enfermidade, prosseguiram no seu caminho, aproximando-se da cidade, cada vez mais.
A beira da estrada havia excelentes vinhas e deliciosos jardins. Encontraram o jardineiro e perguntaram-lhe a quem pertenciam vinhas e jardins tão formosos. Respondeu-lhes que eram propriedade do Rei, e que tinham sido plantados para seu deleite e consolação dos peregrinos. Mandou-os entrar nas vinhas, e ofereceu-lhes os mais primorosos cachos; mostrou-lhes os passeios em que o Rei se deleitava; e terminou por convidá-los a dormirem ali.
E vi que, enquanto dormiam, falavam mais do que em toda a sua viagem; e, tendo notado isso, disse-me o jardineiro: Não tens de que te admirar. E da natureza do fruto destas vinhas entrar suavemente e falar aos lábios dos que dormem. (Cantares 7:9).
Quando acordaram, prepararam-se para entrar na cidade, mas, como já disse, sendo esta de ouro fino (Apocalipse 21:18), era tal o reflexo do sol, e tão altamente glorioso, que não puderam contemplá-los com a face descoberta (II Coríntios 3:18).
E vi que lhes saíram ao encontro dois homens com vestidos reluzentes como o ouro, cujos rostos eram brilhantes como a luz, e lhes perguntaram donde vinham, onde se haviam hospedado, que dificuldades e perigos, que consolações e prazeres, tinham encontrado pelo caminho. Satisfeitas estas perguntas, disseram-lhe: Só vos faltam duas dificuldades a vencer: entrareis, em seguida na cidade.
Cristão e o seu companheiro pediram-lhes logo que os acompanhassem. Os homens responderam que aceitavam da melhor vontade, mas preveniram-nos de que teria de vencer pela própria fé, e assim caminharam juntos, até avistarem a porta.
Chegados ali, vi que entre eles e a porta havia um rio; mas não havia ponte alguma por onde se pudesse passar, e o rio era muito profundo. Ao vê-lo, os peregrinos ficaram muito assustados, mas os homens que os acompanhavam disseram-lhes: Ou haveis de atravessá-lo ou não haveis de chegar à porta.
Não há outro caminho? Perguntaram os peregrinos.
Há, responderam os homens, mas só para dois, que são Enoque e Elias³, aos quais foi permitido passar por cima do rio desde a fundação do mundo, o que a mais ninguém foi permitido até agora.
Começaram então os peregrinos, e especialmente Cristão, a desconsolar-se a olhar para um e outro lado; mas não podiam encontrar caminho por onde evitassem o rio. Perguntaram aos dois companheiros se a água era igualmente profunda em todo o rio. Responderam-lhes que não, mas que isso lhes devia ser indiferente, porque o encontrarem-na mais ou menos profunda dependia da fé que tivessem no Rei do país.
Decidiram-se, pois, a entrar na água; mas, apenas o fizeram, começou Cristão a submergir-se, e a bradar a Esperança: Afundo-me nestas águas, passam sobre mim todas as ondas.
Respondeu-lhe Esperança: Tem coragem, irmão! Eu alcancei o fundo, e acho-o seguro.
Ah! Meu amigo, exclamou Cristão, rodearam-me as dores da morte, e não verei a terra que mana leite e mel. Nisto caiu sobre Cristão grande horror e obscuridade, de modo que nada podia ver. Perdeu parte dos sentidos, de modo que não podia recordar-se nem falar com acerto de nenhum dos doces refrigérios que tinha encontrado no caminho.
Todas as palavras que pronunciava davam a entender que tinha horror e se aterrorizava de morrer naquele rio e de não chegar a entrar pela porta da cidade. Os circunstantes também observavam que ele tinha dolorosos pensamentos do pecado que cometera, tanto antes como depois de se fazer peregrino. Igualmente se notou que o afligiam aparições, fantasmas e espíritos maus, o que se depreendia das palavras que soltava.
Mui grande era o trabalho de Esperança para conservar fora da água a cabeça de seu irmão. Algumas vezes submergia-se inteiramente, o que o deixava quase meio morto. Tratava-se de o consolar, falando-lhe da porta e dos que ali estavam esperando, mas Cristão respondia: É a ti, é a ti que esperam; sempre foste Esperança desde que te conheço; ah! Por certo que, se eu fosse aceito por Ele, levantar-se-ia para me ajudar, mas, por meus pecados, trouxe-me ao laço e abandonou-me nele.
Nunca, respondeu Esperança: esqueceste sem dúvida o texto em que se diz dos maus: Não atendem à sua morte e não há firmeza na sua ferida; não participam dos trabalhos dos homens, nem com os homens serão flagelados (Salmos 73:4-5).
Estas aflições e trabalhos, por que estás passando neste rio, não são sinal de que Deus te haja abandonado; e apenas servem para te experimentar, e para ver se te lembras do que tens recebido da sua bondade, e se vives Dele nas tuas aflições.
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¹ Hefsibá: "Meu prazer"
² Beulá: "Casada"
³ Enoque (Gn 5:24; Hb 11:5) e Elias (2 Rs 2:10-11) foram arrebatados vivos e não passaram pela morte física.
Instrumental:
https://hinario.org/detail.php?tab=1&mainins=admin/Uploaded-mp3-Files/0047.1.piano.mp3&id=59
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